

Manchas esverdeadas se espalharam por 30 quilômetros do rio Bacajá, importante afluente do Xingu, em Anapu, no Pará. Identificada inicialmente por indígenas em 24 de outubro, a contaminação foi confirmada por análises da água, que detectaram concentrações de cianobactérias potencialmente tóxicas para humanos e peixes até quatro vezes superiores ao limite de referência.
Nesta sexta-feira (6), as manchas ainda persistem. Com receio de impactos à saúde, indígenas e ribeirinhos deixaram de consumir peixe e a água do local.
“A situação é grave principalmente para as populações ribeirinhas e indígenas que têm uma relação muito estreita com esse rio. As pessoas têm que evitar consumir peixe ou animais que tenham contato direto com essa água contaminada”, disse o biólogo Dilaílson de Souza, mestre em recursos aquáticos amazônicos e doutorando em Ecologia pela Universidade Federal do Pará (UFPA).
Após receber relatos de ribeirinhos e indígenas, o Ministério Público Federal do Pará (MPF-PA) pediu amostras da água em 27 de outubro e, um dia depois, 28, o material foi coletado e encaminhado para análise do Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen) de Belém. Os laudos foram recebidos pelo MPF em 4 de novembro e obtidos com exclusividade pela InfoAmazonia.

A situação é grave principalmente para as populações ribeirinhas e indígenas que têm uma relação muito estreita com esse rio. As pessoas têm que evitar consumir peixe ou animais que tenham contato direto com essa água contaminada.
Dilaílson de Souza, biólogo, doutorando em Ecologia pela UFPA
De Souza analisou os resultados e afirma que foram identificadas cianobactérias de três gêneros potencialmente tóxicos: Microcystis, Anabaena e Planctothrix. As concentrações chegaram a 213.520 células/mL, mais de quatro vezes o limite de 50 mil células/mL estabelecido pela Resolução nº 357 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama).
O biólogo alerta que os métodos de tratamento de água comumente utilizados pelas comunidades, como filtros de barro e cloração, não são suficientes para eliminar possíveis cianotoxinas presentes na água.
A contaminação, segundo De Souza, pode ter sido provocada por uma combinação de fatores: a elevação da temperatura da água em razão das condições climáticas, em um ano de El Niño de intensidade muito forte; a baixa vazão dos rios da Volta Grande do Xingu, controlada pela Usina Hidrelétrica de Belo Monte desde 2015; e atividades ilegais, como desmatamento e garimpo de ouro, que podem provocar a ressuspensão de sedimentos na coluna d’água e aumentar a disponibilidade de nutrientes, como o nitrogênio, favorecendo o crescimento desses micro-organismos.
Novas análises laboratoriais deverão confirmar as causas dessa floração de cianobactérias e avaliar seu grau de toxicidade e os riscos à população. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), por sua vez, analisará a concentração de metais pesados nas amostras.
Odor forte e um gosto ruim
Os três gêneros de cianobactérias identificados são potencialmente produtores de toxinas e podem representar riscos à saúde. O prefixo “ciano” vem do grego kyanós, que significa azul, em referência a pigmentos presentes nesses microrganismos, como a ficocianina, que, junto à clorofila, deixam a água em tons de azul, verde ou verde-azulado. O risco à saúde humana é grande.
“O gênero Microcystis tem potencial de produzir uma toxina capaz de afetar o fígado, promover tumores e coceira na pele. O Anabaena pode transmitir toxinas ligadas à questão neurológica, extremamente perigosas”, explica Dilaílson de Souza. Segundo ele, a exposição pode ocorrer tanto pela ingestão quanto pelo simples contato com a água.
O Planctothrix também apresenta riscos à saúde, mas é esse gênero que está relacionado ao odor forte, sentido pela equipe da InfoAmazonia durante visita ao local, e ao gosto desagradável da água.


Em 27 de outubro, subimos o rio na região da comunidade Bacajá até o encontro com o igarapé Pariaxá, em um trajeto de quatro quilômetros, para verificar a extensão da mancha. No percurso, em um remanso formado por pedras expostas, a superfície da água estava coberta por uma camada esverdeada, viscosa e densa, com concentração de espumas azuladas no centro. A cena se repetiu em vários trechos do curso d’água.
No dia seguinte, em 28 de outubro, a InfoAmazonia voltou a percorrer o rio, desta vez para acompanhar a coleta das amostras de água junto com pesquisadores até o encontro do Bacajá com o igarapé Pariaxá. Alguns peixes já estavam mortos e boiavam na água, possivelmente por asfixia, já que a floração de cianobactérias pode comprometer a disponibilidade de oxigênio na coluna d’água.
“[A contaminação por cianobactérias] nos preocupa muito porque pode apresentar toxinas comprometedoras para os peixes, mas também para as comunidades que dependem do rio, que já não tem água adequada o suficiente, e um grande impacto no seu modo de vida”, avalia bióloga Janice Cunha, professora da Universidade Federal do Pará (UFPA) e pesquisadora do Instituto de Monitoramento Ambiental Territorial Independente e Pesquisa Intercultural da Volta Grande do Xingu (MATI-VGX), composto por pesquisadores indígenas, ribeirinhos e acadêmicos para monitorar os impactos da usina hidrelétrica de Belo Monte aos ecossistemas e modos de vida da população.
A equipe do MATI identificou peixes mortos de cinco espécies, entre elas três tipos de acari: amarelinho, dorminhoco e aba-laranja. “Por serem peixes ornamentais, eles ficam sempre no leito do rio e nas pedras, e acabam sugando as algas, se contaminando e estão morrendo”, observa Josiel Juruna, diretor do MATI e liderança da Terra Indígena (TI) Paquiçamba, em Vitória do Xingu, no Pará. “O amarelinho, além de peixe ornamental de aquário do qual o pessoal tirava sua renda no Xingu, também é uma fonte de alimentação”.

‘Nunca aconteceu’
Paulo dos Passos Ferreira, 42 anos, da etnia Arara, nasceu e cresceu na região e vive na beira do rio Bacajá, onde pesca desde os 9 anos.
Ele conta que já escutava os primeiros relatos sobre a mancha desde 24 de outubro, por parentes da aldeia Pykayakó, na TI Trincheira–Bacajá, a 30 quilômetros rio acima da comunidade onde vive. “Até avisei meu pessoal para não deixar mais as crianças irem para o rio, nem os adultos, e reservar uma aguinha do poço para tomar banho, porque está difícil agora”.
Manoel Tucum, liderança da aldeia, também relatou à InfoAmazonia que o rio ficou verde em 24 de outubro, provocando preocupação imediata entre os Xikrin. Desde então, eles suspenderam o consumo de peixe.
“O peixe foi contaminado. Ficou com gosto de pubo [fermentado ou podre]. A gente está esperando um tempo para pegar o peixe de novo, para ver se está com o mesmo gosto”, diz Tucum.
Os pescadores da Volta Grande do Xingu já enfrentam há uma década a redução de peixes, após a instalação da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Segundo o monitoramento do MATI, o represamento da vazão do rio Xingu, por parte da operadora da usina, Norte Energia, prejudica a migração dos peixes rio acima até os igapós – as florestas alagadas – e os sarobais – vegetação que nasce nos pedrais da Volta Grande. Esses ecossistemas não enchem mais de água de novembro a março, período em que os peixes deveriam subir o rio Xingu e afluentes, como o Bacajá, para se alimentar e reproduzir.

“A seca do rio Bacajá está praticamente permanente. Por poucos dias do ano consegue ficar com a água mais elevada, por isso a quantidade de peixe está diminuindo dentro desse rio”, diz Josiel Juruna. “A população, tanto ribeirinha como indígena, sofre muito, porque não tem locais onde possam pegar peixe no rio Bacajá, e fica sem a fonte de um alimento que já era escasso”.
Como alternativa para manter a renda da pesca, ribeirinhos e indígenas passaram a criar peixes em tanques-rede na beira do rio. Em 31 de outubro, a água contaminada chegou ao criadouro de tambaquis de Paulo Ferreira, que não teve tempo de retirá-los.
“Isso aqui nunca aconteceu. Eu vim na beira do rio, fui até o tanque rede que a gente tem um criatório de tambaqui, e percebi que estava chegando uma nata verde já no porto de casa”, diz Ferreira, que também é monitor do MATI.

Isso aqui nunca aconteceu. Eu vim na beira do rio, fui até o tanque rede que a gente tem um criatório de tambaqui, e percebi que estava chegando uma nata verde já no porto de casa.
Paulo dos Passos Ferreira, da etnia Arara
Como resposta, o MPF-PA solicitou à Vigilância em Saúde do município de Anapu a “disponibilização e distribuição urgente de cestas básicas de alimentos às famílias atingidas na calha do rio Bacajá”.
Moradores locais relataram à InfoAmazonia que, em 4 de novembro, apenas 30 das cerca de 200 famílias da região haviam sido contempladas com o reforço da prefeitura, especialmente as que vivem às margens do rio. Entre elas, está a família de Paulo Ferreira.
As cestas incluem café, biscoito, macarrão, flocão de milho, leite em pó, óleo, farinha, sal, açúcar, feijão e arroz, além de um fardo de água mineral. Mas não garantiram a segurança alimentar das famílias, como determinado pelo MPF-PA, pois não contém quantidade significativa de proteína, principal item da dieta afetada pela contaminação do rio – contém apenas duas latas de sardinha.
Nesta quinta-feira (5), Paulo Ferreira relatou à InfoAmazonia que “a água continua verde e fedorenta, cada vez mais” e que morreram mais acaris no rio. Os tanques-rede em que cria tambaquis foram tomados pela água verde. Por isso, ele evita o consumo e a venda. “De repente, pode estar contaminado. Ainda não morreu nenhum, mas não é bom arriscar.”
MPF cobra providências das autoridades
Após duas semanas da contaminação, poucas providências foram tomadas pelo poder público para garantir a segurança alimentar e hídrica dos ribeirinhos e indígenas que vivem às margens do rio Bacajá, além da distribuição de cestas básicas pela prefeitura de Anapu.
Desde 28 de outubro, Thais Santi, procuradora da República do MPF-PA, em Altamira, encaminhou uma série de ofícios às autoridades para atender às demandas da população e monitorar e mitigar os impactos ambientais e sociais da contaminação.
À Secretaria de Estado de Saúde Pública, Santi solicitou “a adoção das medidas preventivas de vigilância em saúde ambiental”, diante dos “indícios severos de contaminação hídrica no rio Bacajá”. Ao município de Anapu, pediu o fornecimento de cestas básicas às famílias atingidas.
Ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), solicitou a adoção de medidas urgentes de “fiscalização, proteção ambiental e controle das condicionantes do licenciamento ambiental” da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.
“Além das condições de vida da Volta Grande do Xingu, que inclui o fornecimento de água, tem o monitoramento ambiental do Trecho de Vazão Reduzida e o pulso de inundação que não é alcançado porque a usina opera com hidrograma [a variação do fluxo de água do rio liberado ao longo do tempo no local da usina] em descumprimento das premissas ambientais do licenciamento”, explicou o MPF-PA, em nota à InfoAmazonia.
À Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Santi alertou que a exposição às águas contaminadas nas TIs Trincheira Bacajá e Arara da Volta Grande, além dos domicílios indígenas fora de territórios demarcados, “representa um risco iminente de intoxicação e danos graves à saúde pública”. Por isso, solicitou providências urgentes para o “alerta, comunicação e assistência às comunidades indígenas moradoras da região”.
Santi também encaminhou um ofício à Procuradoria–Geral da União, solicitando ao ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena “o apoio e a articulação de medidas urgentes de assistência humanitária, proteção social e assistência humanitária, proteção social e garantia da água potável para os povos”.
Com exceção do envio do laudo pelo Laboratório Central do Pará (Lacen) e da distribuição de cestas básicas pela prefeitura de Anapu, nenhum dos outros órgãos acionados havia respondido aos ofícios do MPF-PA até a publicação desta reportagem.
A InfoAmazonia também procurou todos os órgãos que receberam os ofícios e perguntou sobre as medidas que devem ser tomadas, mas não recebeu uma resposta até a data de publicação.
https://infoamazonia.org/2026/11/06/rio-bacaja-fica-verde-e-tem-trecho-de-30-km-contaminado-por-bacterias-que-ameacam-comunidades-no-xingu/
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