
A cantora Shakira adiou novamente o aguardado show que faria diante das Pirâmides de Gizé, no Egito. A apresentação estava marcada para 28 de novembro de 2026 e foi transferida para 2 de abril de 2027. É a segunda mudança de data do mesmo evento. Originalmente, a colombiana subiria ao palco no dia 7 de abril deste ano, mas o espetáculo foi transferido para novembro por causa das tensões regionais. Agora, mais uma vez, o cenário no Oriente Médio interferiu nos planos. Em comunicado publicado nas redes sociais, Shakira afirmou que a decisão foi tomada diante das “circunstâncias atuais na região”, colocando a segurança e o bem-estar de todos como prioridade. A cantora reforçou que pretende realizar o show e confirmou a nova data para abril de 2027.
A apresentação faz parte da turnê “Las Mujeres Ya No Lloran” e tem um peso especial justamente pelo cenário escolhido. Shakira se apresentará tendo as Pirâmides de Gizé como pano de fundo, quase duas décadas depois de sua passagem pelo Egito em 2007. Antes do novo adiamento, os ingressos para o espetáculo estavam esgotados. Segundo informações divulgadas após a mudança, os bilhetes adquiridos continuam válidos para a nova data e há possibilidade de solicitar reembolso conforme as condições estabelecidas pela organização.
O problema não termina no valor do ingresso Existe, entretanto, um aspecto dessa história que merece atenção especial quando olhamos para o evento sob a perspectiva do turismo. Um espetáculo internacional desse porte, realizado diante de um dos monumentos mais conhecidos do planeta, não movimenta apenas o público residente no Cairo. Ele tem enorme capacidade de atrair visitantes estrangeiros e pessoas de outras regiões, que organizam uma viagem inteira para assistir ao show. É justamente aí que um segundo adiamento se torna muito mais complicado. O ingresso pode ser mantido para a nova data ou eventualmente reembolsado, mas uma viagem internacional envolve passagem aérea, hotel, seguro, traslados e, muitas vezes, outros serviços comprados antecipadamente.
Quem comprou uma passagem para chegar ao Cairo no fim de novembro não consegue simplesmente transferi-la para abril sem necessariamente enfrentar regras tarifárias, diferença de preço ou multas. O mesmo pode acontecer com hotéis e outros serviços não reembolsáveis. Portanto, para quem viaja especificamente por causa do espetáculo, o prejuízo potencial vai muito além do ingresso. E esse é um ponto que considero fundamental quando grandes eventos internacionais são promovidos como produtos capazes de estimular o turismo: se o evento atrai visitantes e gera deslocamentos internacionais, sucessivos adiamentos também podem produzir consequências financeiras importantes para essas pessoas.
A outra contradição que merece ser discutida Conheço bem o Egito e considero importante colocar outro elemento nessa discussão. Estamos falando de um país de maioria muçulmana, socialmente conservador, que ao mesmo tempo abre espaço para um espetáculo internacional protagonizado por uma mulher que construiu boa parte de sua imagem pública em torno da liberdade, da dança e da autonomia feminina. O problema não é a religião islâmica em si, e seria incorreto atribuir a uma religião inteira as condições enfrentadas pelas mulheres egípcias. A questão está nas desigualdades e restrições existentes no país. O Egito aparece entre os países com piores resultados mundiais em paridade de gênero, e organizações internacionais apontam problemas como violência de gênero, desigualdade econômica e leis de status pessoal discriminatórias.
Por isso, para mim, existe uma contradição que não pode ser ignorada. Um país pode receber milhares de pessoas para assistir a uma estrela internacional cantar e dançar diante das Pirâmides, enquanto mulheres que vivem naquela sociedade continuam enfrentando barreiras que uma turista talvez não perceba dentro da área controlada de um grande evento. O espetáculo acontece em ambiente organizado, com segurança e controle de acesso. A experiência fora dali é outra questão. Isso não significa dizer que uma mulher não possa conhecer o Egito, mas significa dizer que é preciso viajar consciente das particularidades do destino.
E não estamos falando apenas de uma percepção pessoal. O alerta oficial de viagem dos Estados Unidos informa expressamente que o assédio contra mulheres, inclusive estrangeiras, é um problema no Egito e cita relatos de comentários obscenos, exposição indecente, contato físico indesejado e episódios de apalpamento em táxis e locais públicos. A orientação destinada especificamente às viajantes recomenda cautela em multidões, transportes públicos e áreas isoladas de templos e pirâmides e aconselha evitar viajar sozinha.
Um show internacional também é turismo É exatamente por isso que o segundo adiamento da apresentação de Shakira precisa ser analisado para além do universo do entretenimento. Estamos falando de um espetáculo realizado em um dos principais cartões-postais turísticos do planeta e capaz de motivar uma viagem ao Egito. A própria escolha das Pirâmides transforma o show em uma experiência turística, e muita gente não compra apenas um ingresso: compra uma viagem.
Para o turista que já tinha passagem emitida, hotel reservado e programação organizada para novembro, a pergunta agora é muito mais complicada do que simplesmente “o que fazer com meu ingresso?”. É preciso verificar individualmente as condições da tarifa aérea, as regras de cancelamento da hospedagem e de cada serviço contratado. Não se deve presumir que o adiamento do show obrigará companhias aéreas ou hotéis a devolver valores, porque são contratos independentes do evento.
Shakira afirma que estará no Cairo em 2 de abril de 2027. Tomara que esteja e que o espetáculo finalmente aconteça. Mas, depois de duas mudanças de data provocadas pelo cenário regional, fica também uma reflexão importante para quem cruza fronteiras exclusivamente para acompanhar grandes shows: por mais extraordinária que seja a experiência prometida, passagem aérea, hospedagem e demais despesas da viagem podem não acompanhar a mesma facilidade com que uma produção muda uma data no calendário.
https://turismo.ig.com.br/colunas/vitor-vianna/2026-11-01/shakira-adia-novamente-seu-show-no-egito.html
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