
Após 415 dias presa sem julgamento, a liderança da Favela do Moinho deixou a prisão em 28 de outubro. A decisão é uma conquista da mobilização popular, mas não significa sua absolvição. Enquanto Alê estava encarcerada, o governo de Tarcísio de Freitas concluiu a destruição da última favela do centro de São Paulo.
Alessandra Moja Cunha, conhecida como Alê, deixou a Penitenciária Feminina de Santana na quarta-feira, 28 de outubro. A liderança histórica da Favela do Moinho poderá responder ao processo em liberdade, embora submetida a medidas cautelares. Entre elas está a proibição de se aproximar da região central de São Paulo, onde atuou durante anos na defesa dos moradores.
Alê foi presa sob acusação de cobrar dinheiro de moradores para permitir seu cadastro no reassentamento do Moinho. A defesa nega a cobrança e afirma que a denúncia não aponta sequer uma vítima ou episódio concreto de extorsão; em vez disso, transforma seus vínculos familiares e sua atuação comunitária em indícios de crime, em uma clara tentativa de criminalizar a luta por moradia.
Alê denuncia agressão, ameaça de choques e flagrante forjado
Sua prisão ocorreu em 8 de setembro de 2025, durante a Operação Sharpe, conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo. Alê denunciou, em audiência de custódia, que policiais arrombaram sua casa, deram-lhe um soco no peito e cobriram sua boca com uma toalha. Segundo seu relato, os agentes exigiram a senha do celular e, quando ela disse não se lembrar, cortaram um fio ligado à televisão e ameaçaram submetê-la a choques elétricos. Diante da ameaça, ela entregou a senha.
Alê também denunciou que os policiais levaram uma bolsa com drogas para dentro da residência e anunciaram depois um suposto flagrante, que ela afirma ter sido forjado para incriminá-la. Seu marido apresentou o mesmo relato. Conforme apurou a Ponte Jornalismo, três testemunhas disseram ter visto agentes entrarem na casa com um saco preto. Os policiais que participaram da operação não usavam câmeras corporais.
A denúncia de Alê é de que sofreu violência e ameaça de tortura dentro da própria casa, ao mesmo tempo em que drogas eram colocadas no local para justificar sua prisão. Esses fatos estão no centro do caso e exigem apuração e responsabilização dos agentes envolvidos. Durante o encarceramento, a liderança ainda foi transferida para Tupi Paulista, a cerca de 670 quilômetros da capital, o que dificultou o contato com sua família.
Ao deixar a prisão, Alê declarou que considera seu encarceramento político e que pretende provar sua inocência. Falou também do sofrimento vivido nesse período e da alegria de reencontrar os filhos e os companheiros de luta.

A prisão em meio à destruição do Moinho
Não se pode separar a prisão de Alê do processo de destruição da Favela do Moinho. Há cerca de 15 anos atuando na defesa dos moradores, ela participou das reivindicações por moradia, regularização fundiária, acesso à água, energia elétrica e saneamento básico. Também esteve envolvida na manutenção de espaços culturais e comunitários, como a Casa Pública, o Parque Vermelhão e o Cine Moinho.
Durante o governo de Tarcísio de Freitas, a comunidade foi submetida a remoções e demolições acompanhadas de denúncias de violência policial e descumprimento de compromissos habitacionais. A organização dos moradores arrancou um acordo para o acesso a imóveis gratuitos, em lugar da proposta inicial de crédito para a compra de casas financiadas. Isso, porém, não impediu que as máquinas avançassem sobre o território enquanto famílias ainda viviam ali.
Em novembro de 2025, a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) derrubou parte de uma casa ocupada, colocando seus moradores em risco. Em junho deste ano, AND registrou que três em cada quatro famílias que já haviam saído do Moinho ainda não tinham recebido moradia definitiva. Hoje, a comunidade está completamente desocupada e suas construções foram demolidas.
A prisão de Alê chegou a ser explorada por Tarcísio em um debate eleitoral, quando o governador associou a liderança ao crime para atacar seu adversário antes de qualquer julgamento. Enquanto isso, a mulher que denunciava a violência contra os moradores permanecia encarcerada.
A libertação de Alessandra é uma vitória da resistência popular, mas não apaga as violências denunciadas durante esse processo. Tampouco devolve à comunidade o território destruído. O governo de Tarcísio deve responder pelas violações cometidas contra os moradores e pelas consequências de uma política que tratou a população pobre como obstáculo aos projetos impostos sobre o território.

Da cidade ao campo, a mesma ofensiva contra a luta popular
A situação da Favela do Moinho não é um caso isolado. Em São José dos Campos, os 471 moradores da Comunidade Menino Jesus enfrentam a ameaça de perder suas casas. Uma associação formada por mulheres está à frente da resistência das famílias e da organização da vida coletiva no território.
A mesma política de criminalização se manifesta no campo, onde camponeses pobres e seus defensores enfrentam a violência do latifúndio e das forças repressivas. Em Rondônia, a Associação Brasileira dos Advogados do Povo Gabriel Pimenta (ABRAPO) denunciou que, no caso da advogada popular Lenir Correia, até o envio de informações processuais e matérias jornalísticas a seus clientes foi apresentado como indício de participação criminosa. A perseguição a quem organiza a luta por moradia na cidade encontra, assim, seu paralelo na perseguição a quem defende a luta pela terra.

A liberdade provisória de Alê demonstra que a mobilização popular pode conquistar resultados concretos, mesmo diante da máquina de repressão do velho Estado. Mas a luta não termina com a abertura dos portões da prisão. Os ativistas exigem sua absolvição e a apuração de agressões, a denúncia de flagrante forjado e a responsabilização dos agentes envolvidos nas violações contra a comunidade do Moinho.

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