
A hipertensão arterial, popularmente chamada de pressão alta, é uma doença crônica caracterizada pelo aumento da pressão sobre as paredes das artérias. Assim, o coração trabalha com mais intensidade para garantir a circulação sanguínea pelo organismo. A condição está entre os principais fatores de risco para eventos potencialmente fatais, como AVC (acidente vascular cerebral), infarto, aneurisma e insuficiência cardíaca.
A prevalência da hipertensão na população adulta do Brasil é de 29,7%, segundo relatório publicado em julho pelo Ministério da Saúde. Desse total, cerca de 80,7% recebem tratamento medicamentoso. Isso significa que 19,3% das pessoas diagnosticadas com a doença não utilizam medicamentos para controlar a hipertensão.
O dado reforça uma preocupação antiga: a falta de regularidade no seguimento do tratamento. “Temos um mundo de medicações para tratar a hipertensão. Boa parte desses remédios é oferecida gratuitamente pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Da mesma forma, o diagnóstico da condição também é fácil, exigindo apenas a avaliação pressórica no consultório ou a indicação de exame de MAPA (monitorização ambulatorial da pressão arterial)”, afirma o cardiologista Vagner Madrini Junior, pesquisador da ARO (Academic Research Organization), do Einstein Hospital Israelita.
O principal desafio no combate à hipertensão é a adesão ao tratamento. “Estudos apontam que apenas 20% a 40% dos pacientes com hipertensão conseguem, de fato, manter sua pressão controlada e, para chegar a esse resultado, cerca de 2/3 deles precisam tomar pelo menos duas classes de medicações diferentes”, diz Madrini.
Nesse contexto, é comum que o paciente se confunda com os medicamentos, esqueça de tomá-los ou simplesmente abandone o tratamento, especialmente se já convive com outras doenças crônicas, como diabetes e colesterol alto.
Simplificação do tratamento
Sem o uso dos medicamentos, a pressão arterial tende a permanecer descontrolada, o que aumenta o risco de complicações associadas à doença. Nesse contexto, surgiu a ideia do ensaio clínico OPTION TREAT, desenvolvido por pesquisadores do Einstein em colaboração com a Libbs Farmacêutica, a USF (Universidade São Francisco) e o Centro Universitário CESMAC. Os autores avaliaram a eficácia da combinação de 3 medicamentos em um único comprimido (candesartana, clortalidona e anlodipino), estratégia que tem potencial para aumentar a adesão ao tratamento.
Embora já existam comprimidos que combinam 2 ou 3 princípios ativos, a pesquisa foi a primeira no Brasil a utilizar a clortalidona. “Estudos anteriores mostram que, em sua formulação simples, esse diurético tiazídico de alta potência tem eficácia amplamente comprovada no combate à pressão alta. No entanto, ainda não se conhecia seu efeito em uma combinação com outros medicamentos”, afirma Vagner Madrini, que integrou a equipe responsável pelo ensaio clínico, publicado em agosto de 2025 no periódico JACC: Advances.
A pesquisa verificou que, após 12 semanas de tratamento, a redução média da pressão arterial sistólica foi de 22,6 mmHg entre os adultos que receberam o comprimido proposto, ante 18,2 mmHg no grupo de controle, tratado com uma combinação de outros componentes: valsartana, hidroclorotiazida e anlodipino.
“Logo no início houve uma queda importante da pressão, que se manteve estável ao longo de todas as semanas de acompanhamento”, diz a cardiologista Patrícia Oliveira Guimarães, head de Ensaios Clínicos em Cardiologia na ARO Einstein, que também participou da condução do estudo. “Isso nos mostra que a resposta ao medicamento acontece principalmente no começo do tratamento.”
Os pesquisadores também identificaram que a proporção de pacientes que atingiram pressão arterial abaixo de 140/90 mmHg, limite utilizado como referência para o controle da hipertensão, foi maior entre aqueles que receberam o novo comprimido combinado: 69,3%, contra 59,8% no grupo de controle.
Sexo, raça e risco cardiovascular importam?
No estudo original, os pesquisadores consideraram a amostra completa, composta por 703 adultos com hipertensão não controlada. Naquele contexto, quanto mais diversa a população analisada, mais próximos da realidade seriam os resultados. “Mas sabemos que, hoje, há um interesse cada vez maior em analisar populações específicas que, historicamente, foram negligenciadas pelos estudos clínicos e verificar se um tratamento avaliado globalmente se mantém nesses grupos, dado que, muitas vezes, há variações de resposta conforme o organismo”, afirma Guimarães.
Em um desdobramento mais recente do projeto, a equipe avaliou se o sexo biológico, a raça e o nível de risco cardiovascular dos pacientes poderiam alterar a resposta ao tratamento proposto. Os resultados foram apresentados durante o ESC (Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia), realizado em agosto, na Alemanha. Em todas as subanálises, o comprimido desenvolvido mostrou-se superior à terapia utilizada no grupo de controle, embora a intensidade da redução da pressão tenha variado de acordo com as características de cada pessoa.
Na análise por sexo biológico, por exemplo, verificou-se que as mulheres apresentaram redução média de 23,9 mmHg na pressão arterial sistólica ao longo de 12 semanas, ante 18,7 mmHg entre os homens. O dado chama atenção por ocorrer mesmo diante da maior vulnerabilidade das mulheres a problemas cardiovasculares com o passar dos anos, sobretudo após a menopausa, em razão da diminuição da produção de estrogênio e de outros hormônios cardioprotetores.
Na análise por raça, a equipe concluiu que pacientes brancos, negros e pardos responderam de maneira semelhante ao novo tratamento. De acordo com o estudo, independentemente da raça, houve redução adicional média de 5,48 mmHg na pressão sistólica em comparação com o outro tratamento. O dado reforça o potencial de aplicação da estratégia em populações diversas, o que é particularmente relevante em países marcados pela miscigenação, como o Brasil.
Por fim, na análise do risco cardiovascular dos pacientes, observou-se que aqueles classificados como de risco baixo ou intermediário apresentaram redução adicional média de 4,13 mmHg na pressão sistólica em comparação com os pacientes de alto risco. Ou seja, embora o comprimido tenha apresentado menor eficácia nos casos de maior risco cardiovascular, a estratégia parece ser mais vantajosa do que a terapia convencional.
“Em todos os casos analisados, a pressão estava alta e a terapia tripla anti-hipertensiva combinada conseguiu demonstrar uma boa resposta”, afirma Patrícia Guimarães. “Concluímos que, mais importante do que comparar os diferentes grupos entre si, é comparar as pessoas com elas mesmas. No consultório, estamos diante de um paciente só, e o que importa é tratá-lo tendo em mente sua própria evolução durante o tratamento.”
Este texto foi publicado originalmente pela Agencia Einstein em outubro de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.
https://www.poder360.com.br/poder-saude/combinacao-de-remedios-pode-melhorar-controle-da-hipertensao/
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