
Uma gigantesca onda de mobilização do eleitorado do presidente Lula nas ruas de todo o Brasil e a criação do “Exército de Lula”, comandadas pelo deputado federal André Janones (Rede-MG, reeleito com 78.780 votos), levaram o candidato Lula a vencer sua quarta corrida presidencial, aos 81 anos, com uma abstenção — a menor em 20 anos — de 19,21% e um acréscimo de 10,3 milhões de votos em relação ao primeiro turno.
Importante enfatizar que também foi a primeira vez que um candidato a presidente conseguiu vencer a eleição depois de amargar um segundo lugar na corrida ao Palácio do Planalto. O resultado divulgado pelo TSE chegou às 20h55 do último dia 25, com o candidato do PT eleito com 51,79% dos votos válidos (64.256.232 votos), contra 48,21% (59.826.041 votos) de seu opositor, Flávio Bolsonaro. A virada de Lula é inédita na história do Brasil.
Em seu primeiro pronunciamento à nação, Lula se disse emocionado com as imagens que viu ao longo do domingo passado, com idosos amparados por netos e cuidadores, vários em cadeiras de rodas, indo às seções eleitorais. Ressaltou a importância dos jovens brasileiros que ocuparam praças, avenidas e ruas, com ou sem a presença dele, promovendo a democracia. Além disso, agradeceu, primeiramente, a Deus, pela sua quarta vitória, e aos esforços de seus companheiros, como o vice-presidente Geraldo Alckmin, a quem fez elogios dos mais espetaculares em sua primeira fala depois de eleito; Haddad, Marina, Tebet, Camilo, Rui, Gleisi e Sidônio (todos deverão compor o próximo ministério); e o “general” Janones. Emocionado, disse que essa eleição — a última de sua vida — lhe provou que a comunicação digital veio para ficar e que ela ganhará espaço em sua comunicação diária com o povo, várias vezes por dia.
A acachapante vitória de Lula impede que a família Bolsonaro comande o país quatro anos após o fim do governo negacionista de Jair Bolsonaro, responsável direto por mais de 700 mil mortes na pandemia e que se mantém preso por tentativa de golpe de Estado. Foi a vitória, como Lula mesmo enfatizou no comício da Avenida Paulista, “da democracia”, sublinhando que, em suas sete campanhas presidenciais, “jamais debateu com um candidato miliciano”.
Depois de um domingo tenso, com denúncias da campanha de Lula ao TSE pela falta de ônibus em cidades como Salvador, Lauro de Freitas e Feira de Santana, na Bahia, reduto do candidato petista, e em São Paulo, o candidato bolsonarista também peticionou, da mesma forma, a prorrogação do horário de votação, por questões climáticas em várias regiões do país.
O presidente do TSE, Nunes Marques, que tinha tomado conhecimento desses problemas às 13h, só decidiu não prorrogar o horário pretendido por ambos os candidatos no final das apurações. Coube ao ministro Cristiano Zanin, do STF, sorteado para analisar tais pretensões, que só foram recebidas às 16h32, tomar a decisão de prorrogar por mais duas horas, até as 19h, o fim da votação, causando um tumulto em todo o país, uma vez que as urnas já estavam praticamente fechadas, e o TSE já começara a divulgar as primeiras parciais. Uma decisão inexequível.
Flávio Bolsonaro e seu QG, reunidos em Brasília, ao final da apuração, em vez de agradecer pelos quase 60 milhões de votos recebidos, resolveram não reconhecer o resultado e pedir a anulação da eleição, citando a extensão do horário de votação decidida por Zanin. Apenas 34 mil eleitores votaram após a decisão do ministro Zanin. Mais uma bravata do filho de Jair, que também havia pedido a prorrogação. Coube a Nunes Marques declarar que a extensão do horário não afetou em nada o resultado do pleito, até porque Flávio, o mau perdedor, foi vencido na disputa por mais de 4 milhões de votos válidos…
O próximo mandato de Lula não será dos mais fáceis, pois governará com um parlamento predominantemente de direita, tendo de equilibrar o apoio do Congresso Nacional e de nomes de esquerda, acomodar despesas extras no Orçamento — lembrando a alta de gastos pelas benesses prometidas durante a campanha — e montar realmente um governo de frente ampla, além de buscar outras ferramentas para garantir a governabilidade. Em seu discurso na Paulista, Lula mencionou que não escolhera o Congresso e que “é com ele que trabalhará, com diálogo permanente”.
A campanha de Lula cometeu vários erros inimagináveis. Ele mesmo disse, depois do primeiro turno, que foi a campanha “menos organizada” que fez desde 1989. E ele perdeu o primeiro turno — coisa que nunca tinha acontecido com um presidente que terminou em segundo lugar e virou no segundo turno desde 1989. Resultado do primeiro turno: Flávio Bolsonaro, 47,03%, contra Lula, 45,16% — diferença de 2,2 milhões de votos.
Destacaria sete erros que a própria campanha reconheceu:
1. A campanha apostou que venceria no primeiro turno e não se preparou para o segundo;
2. Só falar do passado, nada de futuro. A campanha, na realidade, ficou presa ao tom de defesa do legado. Não apresentou proposta nova para quem estava endividado, enfrentava juros altos e pagava caro pela comida;
3. Falta de material de campanha nos estados em setembro. O próprio Edinho Silva, presidente do PT e coordenador-geral, admitiu “erro de planejamento” na produção e distribuição de material. Houve desencontro na convocação de dirigentes e parlamentares e falta de coordenação entre as estruturas. Lula não foi a nenhum debate no primeiro turno;
4. O governo não entendeu a insatisfação econômica do povo: endividamento das famílias, juros altos e inflação dos alimentos. A campanha falava em números macroeconômicos, enquanto o eleitor sentia os efeitos no mercado.
5. Outro grave erro ocorreu logo no início: a campanha evitou atacar fortemente o adversário, com medo de que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, deixasse o cargo e virasse candidato, pois o consideravam mais forte. Resultado: deixaram Flávio crescer sem ser confrontado;
6. Falar só para a base. No primeiro turno, a comunicação ficou concentrada em reafirmar crenças identitárias e a retórica antifascista. Isso mobiliza a militância, mas afasta o eleitor moderado ou pragmático, que quer soluções para emprego, segurança e preços;
7. Erros de dados nos discursos. A Lupa checou 64 frases de Lula na campanha. Ele errou várias vezes: disse que o PIB só voltou a crescer acima de 3% depois de 2023 — errado; disse que recebeu um déficit primário de 2,8% do PIB de Bolsonaro — errado, pois 2022 fechou com superávit de 0,5%; disse que acabou com a fome — exagerado, pois o que houve foi redução da subalimentação; disse que está construindo um “país livre de feminicídio” — errado, pois 2025 bateu recorde de feminicídios.
No segundo turno, Edinho Silva perdeu poder. Assumiram Rafael Fonteles, eleito governador do Piauí, e os senadores Camilo Santana e Rui Costa. Sidônio Palmeira, responsável pela comunicação, e Janja foram os mais criticados internamente, ela inclusive de forma incisiva pela ex-senadora Kátia Abreu.
Somente a partir do foco nas ruas e nas redes, com André Janones no digital, a campanha decolou, com o exército de mais de 10 milhões de eleitores no quartel de Janones. A busca por quem não votou no primeiro turno — a abstenção era de 21% (33,4 milhões de eleitores) — foi acertada. Já no segundo turno, a participação subiu para 80,8%. As novas promessas, como o perdão de dívidas de MEIs, a tarifa zero no transporte nos fins de semana, o Pé-de-Meia Universitário, a proibição das bets e o aumento do Bolsa Família, foram importantes para a conquista de eleitores. No fim, Lula ganhou 10,3 milhões de votos novos entre os turnos; Flávio, apenas 3,7 milhões.
Do outro lado, na campanha de Flávio, os próprios aliados do Centrão e integrantes da campanha afirmam que ele perdeu pela soberba e arrogância. Ele foi o primeiro candidato na história, desde 1989, a ganhar o primeiro turno e perder o segundo. Talvez nove graves erros tenham implodido a campanha do filho de Jair. Esses erros determinaram a derrota, segundo quem estava lá dentro:
1. Já se sentia eleito — montou o ministério antes da hora. Aliados do Centrão dizem que Flávio passou o segundo turno discutindo a distribuição de ministérios e fazendo promessas a empresários, em vez de buscar votos. Enquanto Lula ia às ruas, Flávio ficava em negociações de bastidores;
2. Agressividade com os mais pobres: essa foi a crítica mais repetida pelo Centrão. Isso apareceu em três falas: Daniella Marques, sua principal conselheira econômica, disse em entrevista que queria trocar servidores por IA, atacou o Bolsa Família e defendeu a política do presidente argentino Milei. Isso assustou muita gente. A fala totalmente equivocada sobre os nove dedos de Lula, com Flávio zombando da deficiência do adversário, foi inconsequente. Em relação ao fim da escala 6×1, ele era contra. Foi obrigado a mudar e declarar voto favorável, mas depois disse que iria rever a posição, se eleito. O eleitor não acreditou.
No terceiro erro, Flávio, depois de ganhar o primeiro turno, anunciou que queria promover alterações na Constituição de 1988 para “redemocratizar” o país, mexer no Judiciário e promover o impeachment de ministros, com Alexandre de Moraes à frente. O eleitor moderado se assustou;
4. A campanha tentou usar as fórmulas de Nikolas e Marçal — vídeos curtos, lacração e cortes. Aliados dizem que a estratégia ficou falsa, sem autenticidade. Flávio não é Nikolas, não é Marçal e pareceu forçado. Ainda colocou gente como Júlia Zanatta, Eduarda Campopiano e Lucas Pavanatto para atacar. Isso funciona na bolha bolsonarista, mas assustou indecisos e direitistas tradicionais;
5. O caso Ana Clara ganhou as redes no segundo turno. Flávio foi advogado de defesa do PM acusado de matar a menina Ana Clara, de cinco anos. Nas pesquisas qualitativas com indecisos durante o debate, a postura dele não foi bem recebida. Reforçou a imagem de alguém que defende quem vitimou uma criança.
Já o sexto erro foi a declaração de uma pessoa que trabalhou com ele na Alerj, chamando-o de o mais “enrolado” da família. Isso pesou demais na tentativa de conquistar os indecisos. As rachadinhas, o caso Queiroz e os imóveis comprados em dinheiro vivo — R$ 638 mil, por fora, em dois apartamentos em Copacabana, além de outros 17 imóveis investigados — também pesaram. A ligação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, a quem chamava de irmão, e os R$ 134 milhões no filme Dark Horse foram outros graves problemas alardeados pelo adversário Lula, assim como a ligação com milicianos — empregou a mãe e a mulher de Adriano da Nóbrega —, a festa da lancha, com empresários negociando vacinas, acompanhado de prostitutas e ainda recebendo de presente um Rolex;
7. Flávio foi um candidato fraco desde o início, sem consistência e maturidade política, ainda que tenha sido deputado estadual por 20 anos e senador por oito.
Ele só foi candidato porque o pai o indicou por carta, escrita da prisão. Parte da direita queria Tarcísio. Flávio nunca conseguiu unificar a direita de verdade, e somente depois do primeiro turno vieram Republicanos, Novo, União Progressistas, Podemos e MDB;
8. Enquanto Lula fazia carreatas no Nordeste e o “Exército de Lula”, de Janones, com mais de 10 milhões de integrantes no WhatsApp, viralizava, Flávio ficou respondendo a ataques e em reuniões fechadas. Perdeu a iniciativa. Lula cresceu 2,6 milhões de votos apenas em São Paulo, 872 mil no Rio de Janeiro e quase 3 milhões no Nordeste. Flávio ainda perdeu votos em seis estados no segundo turno: Acre, Amapá, Roraima, Maranhão, Amazonas e Tocantins.
Outro grave equívoco, o nono, foi não reconhecer a derrota. Trata-se de mais um desatino por parte do candidato. Depois do resultado, o filho de Jair — “o rapaz”, como Lula o mencionava nos debates — anunciou que vai pedir a anulação da eleição por causa da prorrogação da votação até as 19h, determinada pelo ministro Zanin. A própria campanha dele tinha pedido a prorrogação em cinco estados: PR, SC, MG, SP e RS. E só 35 mil votos foram computados depois das 17h. A diferença de votos entre o primeiro e o segundo colocados foi de 4,4 milhões. Ministros do TSE e do STF afirmam que tal reivindicação não prosperará.
Essa atitude do perdedor, mais uma ação tresloucada e até ingênua, isolou-o até da direita latino-americana. Os presidentes Sheinbaum, Kast, Mulino, Díaz–Canel, Keiko, Paz, Orsi, Noboa e Peña, entre outros, parabenizaram Lula, que acaba de receber do eleitor mais um aceno de confiança. Lula não vai manchar sua biografia espetacular, diga-se de passagem, de torneiro mecânico a presidente da segunda maior democracia do mundo pela quarta vez, com ressentimentos. Governará para os 215 milhões de brasileiros e brasileiras, uma vez que se tornou o maior símbolo da democracia ao derrotar Jair, em 2022, e Flávio, em 2026. O eleitorado brasileiro expurgou, finalmente, do cenário nacional a família Bolsonaro, que tem um DNA golpista e anárquico.
Paulo Alonso é jornalista.
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