
Eu cresci em um Brasil diferente. Não necessariamente melhor em todos os aspectos, tampouco livre de crises, escândalos, desigualdades ou disputas políticas acirradas. Mas cresci em um país onde ainda parecia existir uma compreensão elementar de que adversários políticos não precisavam ser inimigos pessoais e de que perder uma eleição fazia parte da democracia.
É impossível não recordar esse Brasil diante dos acontecimentos dos últimos dias, especialmente após o segundo turno das eleições presidenciais, realizado em 25 de outubro, e da decisão de Flávio Bolsonaro de deixar o país depois de ser derrotado nas urnas.
O resultado foi inequívoco. Luiz Inácio Lula da Silva recebeu 64.256.232 votos, contra 59.826.041 de Flávio Bolsonaro. Uma diferença superior a 4,4 milhões de votos. A vitória foi proclamada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), presidido pelo ministro Kassio Nunes Marques, indicado ao Supremo Tribunal Federal pelo próprio Jair Bolsonaro, pai do candidato derrotado.
Ainda assim, o resultado passou a ser questionado sob o argumento de que a prorrogação do horário de votação teria comprometido a legitimidade do processo eleitoral.
Convém recuperar os fatos.
No domingo da eleição, multiplicaram-se relatos de dificuldades enfrentadas por eleitores para chegar às seções eleitorais. Houve denúncias de insuficiência do transporte público, inclusive em municípios administrados por forças políticas adversárias ao governo federal. A gravidade dessas ocorrências exige apuração, sobretudo porque o acesso ao voto não pode depender da conveniência política de quem administra uma cidade.
Diante desse cenário, as duas campanhas presidenciais solicitaram a ampliação do horário de votação. A medida acabou sendo determinada pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, depois das dificuldades enfrentadas para obter uma solução na Justiça Eleitoral. A votação foi prorrogada até 19 horas nas seções que ainda permaneciam abertas.
A decisão foi excepcional e provocou dificuldades operacionais, reconhecidas pelo próprio presidente do TSE. Mas existe uma diferença fundamental entre discutir a condução administrativa de uma eleição e insinuar que seu resultado foi fraudado.
Segundo os dados oficiais, apenas 34.393 votos foram registrados após às 17 horas. Estamos falando de aproximadamente 0,03% dos votos contabilizados, diante de uma diferença superior a 4,4 milhões entre os candidatos. A matemática, nesse caso, é absolutamente esclarecedora: a prorrogação não alterou o vencedor.
É legítimo questionar decisões judiciais. É legítimo cobrar explicações do TSE, do STF e de qualquer instituição da República. O que não me parece legítimo é transformar uma controvérsia operacional em justificativa para deslegitimar a vontade expressa por milhões de brasileiros.
E há uma contradição particularmente difícil de ignorar: o candidato derrotado questiona um processo cujo resultado foi anunciado por uma Justiça Eleitoral presidida por um ministro indicado ao Supremo por seu próprio pai.
Poucos dias depois, Flávio Bolsonaro deixou o Brasil e chegou aos Estados Unidos, apesar de uma determinação judicial para entregar seus passaportes e permanecer no país. O senador é investigado em um inquérito, nega irregularidades e tem, como qualquer cidadão, direito à ampla defesa e ao devido processo legal.
Mas o direito de defesa não se confunde com o direito de descumprir decisões judiciais.
Na minha avaliação, sua saída do Brasil não representa um gesto de coragem política, tampouco uma demonstração de compromisso com o país. Parece muito mais uma tentativa de autoproteção, revestida de um discurso de resistência institucional.
Quem pretende defender a democracia precisa, antes de tudo, demonstrar disposição para respeitar suas regras, inclusive quando elas contrariam interesses pessoais e projetos de poder.
É nesse ponto que minha memória retorna a outro Brasil.
Em 1º de janeiro de 2003, quando Lula assumiu pela primeira vez a Presidência da República, recebeu a faixa presidencial das mãos de Fernando Henrique Cardoso. Não de um aliado, mas de um dos principais adversários políticos do PT na década de 1990.
Fernando Henrique havia derrotado Lula duas vezes, em 1994 e 1998, ambas no primeiro turno. Eram representantes de projetos políticos distintos, protagonizaram embates duros e jamais deixaram de exercer oposição um ao outro.
Ainda assim, naquele primeiro dia de 2003, a democracia falou mais alto. Fernando Henrique entregou a faixa a Lula, reconhecendo não apenas a vitória de um adversário, mas a legitimidade da escolha dos brasileiros.
Guardo também outra imagem emblemática. Em abril de 2008, o então governador de São Paulo, José Serra, do PSDB, simulou a aplicação de uma vacina contra a gripe no braço do presidente Lula, do PT, durante uma campanha nacional de vacinação de idosos.
Serra também era adversário político de Lula. Anos depois, inclusive, disputaria a Presidência contra Dilma Rousseff. Mas naquele momento, diante de uma questão de saúde pública, a divergência partidária não impediu que ambos participassem de uma iniciativa conjunta.
Era possível discordar sobre economia, políticas sociais, administração pública e rumos do país sem transformar cada gesto institucional em uma batalha ideológica.
Há ainda lembranças mais humanas, que considero especialmente significativas.
Em junho de 2008, quando morreu Ruth Cardoso, ex-primeira-dama e esposa de Fernando Henrique, Lula compareceu pessoalmente ao velório, acompanhado de Marisa Letícia. Abraçou seu antecessor e permaneceu ao lado dele naquele momento de dor.
Não era o presidente petista diante de um ex-presidente tucano. Eram dois seres humanos, acima de qualquer divergência política, reconhecendo a dimensão da perda e a importância da solidariedade.
São gestos que deveriam ser naturais. E talvez seja justamente esse o aspecto mais triste do Brasil contemporâneo: aquilo que deveria ser natural passou a parecer extraordinário.
Não pretendo romantizar o passado. A política brasileira sempre teve episódios de intolerância, oportunismo e radicalização. A rivalidade entre PT e PSDB foi intensa, por vezes excessiva, e também contribuiu para alimentar divisões.
Mas havia, ao menos em momentos decisivos, uma disposição para reconhecer que o adversário continuava sendo parte legítima da vida democrática.
Hoje, tenho a impressão de que parte da classe política já não deseja apenas derrotar seus adversários nas urnas. Deseja eliminá-los simbolicamente, negar sua legitimidade e transformar qualquer discordância em uma ameaça existencial.
O problema é que essa lógica não permanece restrita aos gabinetes, aos tribunais ou às campanhas eleitorais. Ela invade famílias, rompe amizades, contamina ambientes de trabalho e transforma cidadãos comuns em inimigos uns dos outros.
Perdemos a capacidade de discordar sem desumanizar.
E quando a política deixa de reconhecer a humanidade de quem pensa diferente, a própria democracia começa a perder seu significado.
Não é necessário admirar Lula para reconhecer sua vitória. Não é necessário concordar com Fernando Henrique para respeitar seu legado. Não é necessário votar em José Serra para reconhecer a importância de um gesto de cooperação institucional. E tampouco é necessário concordar com Flávio Bolsonaro para defender que ele tenha assegurados todos os seus direitos constitucionais.
A democracia não exige unanimidade. Exige limites, respeito às instituições, responsabilidade com os fatos e disposição para conviver com quem pensa diferente.
O que me incomoda profundamente não é a existência de uma direita ou de uma esquerda fortes. Ambas têm legitimidade para disputar projetos de país. O que me incomoda é a transformação da política em um instrumento permanente de hostilidade, no qual a vitória eleitoral do outro passa a ser tratada como algo intolerável.
Eu cresci em um Brasil onde um presidente entregava a faixa ao adversário. Onde um governador de oposição podia participar de uma campanha de vacinação ao lado do presidente da República. Onde a dor de uma família podia ser respeitada por quem, nas urnas, estava do outro lado.
Não quero um país sem divergências. Quero um país onde as divergências não sejam desculpa para abandonar a civilidade.
Talvez o Brasil de que me lembro nunca tenha sido tão civilizado quanto minha memória gostaria de acreditar. Mas havia nele exemplos concretos de grandeza institucional e humanidade que hoje fazem uma falta imensa.
Não sinto saudade de um partido no poder. Sinto saudade de um país onde respeitar o adversário não era visto como uma fraqueza.
E, sobretudo, de um Brasil onde perder uma eleição não significava declarar guerra à democracia.
*Luiz Felipe Leite é jornalista. Atuou em importantes veículos do interior paulista, além de acumular experiência em assessoria de comunicação no setor público, incluindo a Prefeitura de Valinhos, e em organizações da iniciativa privada. Também realizou estudos de pós-graduação em Ciência Política pela Universidade Estácio de Sá, sem concluir a especialização.
**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.
https://revistaforum.com.br/debates/cresci-brasil-diferente/
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