
A fuga do candidato derrotado Flávio “Rachadinha” Bolsonaro (PL-RJ) para o país Estados Unidos (EUA) já estava rascunhada nos bastidores semanas antes da derrota presidencial. Segundo a apuração da colunista Bela Megale, do monopólio de imprensa O Globo, a possibilidade de levar o playboy e sua família ao exterior era considerada caso perdesse a farsa eleitoral. O vexaminoso episódio revela a covardia do senador e sua subserviência aos ditames ianques.
O irmão do fujão, Eduardo “Bananinha” Bolsonaro, que desfruta das benesses ianques desde 2025, converteu-se no articulador central desse arranjo internacional servil. Ele e Paulo Figueiredo mantinham conversas com integrantes do governo do canibal Donald Trump para preparar a recepção do derrotado. A hipótese da saída, entretanto, fora praticamente descartada por Flávio, seus asseclas e familiares depois de ele terminar o primeiro turno à frente de Luiz Inácio (PT).
O fujão chegou ao seu “exílio” de ouro em 28 de outubro, por volta das 10h25, no horário de Brasília, no Aeroporto Executivo de Miami–Opa Locka, acompanhado da esposa, Fernanda, e das duas filhas. As imagens do desembarque registraram a chegada que seus asseclas já haviam anunciado falsamente no dia anterior. A recepção em território ianque, por sua vez, vinha sendo negociada antes do malogro presidencial.
Durante a tarde de 26 de outubro, um dia depois do pleito, o parlamentar divulgara um pronunciamento negando que sairia do País. Queixou-se de ter sido intimado pela Polícia Federal (PF) quando deixava uma visita ao pai e atribuiu a decisão de Alexandre de Moraes a uma declaração de Eduardo, que defendera sua saída caso perdesse a eleição. “Eu nunca falei isso. Isso é motivo para tirar meu passaporte? Isso é justiça?”, reclamou. O teatrinho cínico antecedeu a partida covarde.
A ordem do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) determinava a entrega dos passaportes e proibia “Rachadinha” de deixar o Brasil e de manter contato com seu amigo Willer Tomaz. Integra a investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o senador e o advogado. Flávio também é investigado pelo financiamento de “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro cujos recursos negociou com o ex-magnata Daniel Vorcaro, do Banco Master.

A avaliação da cúpula bolsonarista indicava apreensão. Em uma reunião restrita no escritório de um advogado no Lago Sul, em Brasília, na tarde de 26 de outubro, conselheiros avaliaram que uma prisão logo após a eleição poderia prejudicar a imagem de Luiz Inácio no exterior e sugeriram que Flávio ficasse. Segundo a CNN, o senador “temia ser preso”. O prazo para entregar os documentos venceu às 11h de 27 de outubro, sem que ele cumprisse a determinação. Asseclas próximos classificaram a atitude como “burra” e “covarde”, conforme revelou o Metrópoles. Esperavam um “navegante aguerrido” e encontraram um rato desertor – aparentemente, desconheciam o histórico da família.
O youtuber bolsonarista Fernando Holiday tentou glorificar o fiasco, atribuindo um tom “heroico” ao sumiço covarde. Declarou ser “simplesmente épica a saída de Flávio Bolsonaro do Brasil”. Detalhou, ufano: “passou somente ontem à noite pela fronteira, usou o passaporte italiano para entrar na Argentina e, por via terrestre, você não registra a saída do Brasil. Só registrou a entrada na Argentina às 22h50, pegou o avião, deu uma paradinha no Equador e, pimba, agora sim está indo para os Estados Unidos”. Para Holiday, o “autoexílio” seria providencial: “é essencial para denunciar os abusos que nós estamos sofrendo aqui no Brasil. Que ele possa ainda nos dar esperança de um futuro melhor”.
A pose de valentia do “Rachadinha” esbarra na constatação de seus próprios correligionários: o idolatrado generalzinho zarpou ao primeiro estrondo. O editor de Política da revista reacionária Veja, José Benedito da Silva, afirmou que a política “não deixa vácuo” e criticou a relação do senador com os asseclas: “A segunda mensagem ruim que o Flávio passa com esse gesto é de que ele não se preocupa com os parceiros políticos”. A fuga rompeu a promessa feita àqueles que esperavam vê-lo comandar a oposição no Brasil.

Desinformação para despistar a imprensa
O dia da fuga foi marcado por um denso nevoeiro de informações inverídicas difundidas por fontes ligadas ao governo ianque e pela família Bolsonaro, embaralhando a localização do fujão, quase numa versão do jogo “Onde Está Wally?”. Os monopólios de imprensa passaram a veicular versões segundo as quais Flávio já estava abrigado em solo ianque quando ainda permanecia no Brasil. A própria CNN reconheceu, em 28 de outubro, ter reproduzido informações falsas e classificou sua divulgação como uma “estratégia de desinformação”.
Às 17h39 de 27 de outubro, fontes ligadas ao governo ianque afirmaram à emissora que Flávio já desembarcara com a esposa e as filhas. Pouco antes das 22h, aliados garantiram que ele encontrara Eduardo na Flórida e que os irmãos planejavam uma entrevista coletiva. A versão também chegou ao Estadão/Broadcast, que atribuiu a integrantes do governo Trump a informação de que o senador já estava no EUA. O relato foi reproduzido pelo Jornal do Commercio em 27 de outubro. AND também repercutiu essas informações em seu plantão e em matérias publicadas no Portal, entre elas a notícia sobre o encontro dos irmãos na Flórida.
Uma “autoridade” ianque também dissera à agência imperialista Reuters que “Rachadinha” estava a caminho do país. A cortina de fumaça desviava a atenção para sua recepção no exterior enquanto as forças de repressão do velho Estado alegavam procurar o investigado depois do vencimento do prazo judicial. O empresário mexicano Simón Levy, por sua vez, que se apresenta como aliado de Trump, anunciara a chegada de Flávio “em segurança” por volta das 15h20 daquele dia. Foi ele quem atribuiu ao secretário de Estado ianque, Marco Rubio, a organização da retirada, apresentada como “Operação Alba”.
Os horários posteriormente apresentados pela Direção Nacional de Migrações da Argentina contradizem esses anúncios. Em comunicado publicado às 2h01 de 28 de outubro, o órgão informou que Flávio, Fernanda e as filhas Carolina e Luiza atravessaram a Ponte Internacional Tancredo Neves, entre Foz do Iguaçu (PR) e Puerto Iguazú, somente às 22h50 de 27 de outubro. Às 23h30, embarcaram em um voo particular com destino declarado a Guayaquil, no Equador. O comunicado desmentia as plantações sobre o desembarque e o encontro na Flórida.
O grupo utilizou uma van para atravessar o posto sem qualquer impedimento das forças de repressão brasileiras, o que aponta para falhas graves de fiscalização ou conivência institucional. A travessia ocorreu à noite, depois de um dia inteiro de notícias sobre a fuga e de buscas anunciadas pela PF. Na outra margem da fronteira, a família encontrou as facilidades oferecidas pelo governo do lacaio ianque-sionista Javier Milei.
Paulo Figueiredo também postou recados tranquilizadores para os órfãos do clã. Em 28 de outubro, declarou no X: “O que posso dizer neste momento é que @FlavioBolsonaro está bem, em segurança e descansando com a família. Faremos uma coletiva de imprensa na tarde de amanhã (quinta 29), em Miami, Florida, em horário e local a ser divulgado”. A manobra procurava normalizar a escapatória de quem descumprira uma ordem do Judiciário brasileiro. A Band acrescentou que a entrevista está prevista para o mesmo hotel, no centro de Miami, onde Eduardo e Figueiredo acompanharam a apuração de 25 de outubro em uma transmissão pela Internet.

Manobras migratórias e corredor de fuga
Os passos da retirada do playboy revelam como se abriu um corredor de fuga até o abrigo ianque. Apenas quarenta minutos separaram a entrada registrada na Argentina do embarque da família no luxuoso jato particular Gulfstream G400, de matrícula LV-JQW, operado pela Baires Fly. A aeronave aguardava em Puerto Iguazú desde a noite de 26 de outubro. A emissora argentina C5N acompanhou a movimentação no aeroporto antes da partida. O La Nación informou que a Polícia de Segurança Aeroportuária escoltou o veículo que transportava a família desde a fronteira até a pista, denotando que a passagem de Flávio não se resumiu à apresentação de documentos no controle migratório.
A participação do entorno do lacaio Milei também ganhou novos detalhes. Segundo o UOL, Santiago Caputo, estrategista e assessor do gerente de turno argentino, esteve em Puerto Iguazú e depois foi a Foz do Iguaçu encontrar o bando. O La Nación já havia apurado sua presença em Misiones no momento da partida da aeronave. Caputo zombou das informações contraditórias publicadas pela imprensa e manifestou “toda a minha admiração”, em tradução, por quem havia enganado os jornalistas. Segundo o Clarín, empresas particulares que costumam trabalhar com o governo ianque contrataram o voo previsto de Iguazú ao EUA.
A Baires Fly aparece também no processo argentino que investiga desvios na Agência Nacional de Deficiência, a Andis. Faturas emitidas em nome da companhia teriam servido para respaldar transferências de fornecedores suspeitos de vender medicamentos e insumos ao velho Estado argentino com sobrepreço. Na decisão assinada em 16 de outubro, o juiz Ariel Lijo contabilizou aproximadamente 1,1 bilhão de pesos argentinos nessas operações.
A medida recaiu sobre o intermediário aeronáutico Sergio Mastropietro, apontado como participante da produção das faturas. O La Nación esclareceu que a empresa não figurava entre os acusados naquele processo. Fontes da companhia negaram vínculo com Mastropietro, enquanto interlocutores do empresário contestaram a suspeita de lavagem.
O percurso aéreo seguiu um itinerário para evitar a interferência brasileira, sobrevoando países com governos lacaios do imperialismo ianque, membros do “Escudo das Américas”. Depois de decolar de Puerto Iguazú, o avião contornou o espaço aéreo nacional, passando por Paraguai, Bolívia e Peru, antes de pousar em Guayaquil para reabastecimento. Segundo os dados do FlightAware reproduzidos pelo UOL, a aeronave voltou a decolar às 6h22, no horário de Brasília, com destino a Miami.
O desembarque colocou o reacionário nos braços do Tio Sam, longe do País onde é investigado pelos negócios com Daniel Vorcaro e Willer Tomaz. O advogado já havia deixado o Brasil e, do EUA, chegou a acionar o Judiciário para impedir uma ocupação do MST na mansão que reivindica em Angra dos Reis.
A fuga também alimentou as pretensões de setores da direita interessados em promover o governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos) ao comando da oposição. Segundo a CNN, Tarcísio, que aconselhara Flávio a permanecer no País, projeta uma atuação centrada em pautas econômicas antipovo e na disputa de 2030. Isso, porém, não significa que possa simplesmente herdar um suposto “vácuo” deixado pelo clã.
O resultado eleitoral fortaleceu a extrema direita e consolidou a hegemonia dos Bolsonaro sobre esse campo. A ausência física de Flávio não desfaz sua votação nem a presença ampliada do bolsonarismo no velho Estado burocrático-latifundiário brasileiro. No A Propósito #379, o diretor-geral de AND, Victor Costa Bellizia, foi explícito: “As eleições confirmaram o peso do clã Bolsonaro na liderança hegemônica da direita. Ele não ficou mais fraco, ficou mais forte”.
Carlos Bolsonaro, eleito senador por Santa Catarina, relatou em 28 de outubro ter pedido desculpas ao pai pela derrota do irmão: “Desculpa, pai, a gente falhou”. Segundo contou, Jair respondeu: “Negativo, levanta a cabeça, vamos embora”. O relato veio acompanhado da promessa de continuar a atuação pela liberdade do patriarca.
O eco do vexame cruzou as fronteiras e repercutiu nos periódicos burgueses europeus. A revista alemã Der Spiegel publicou “O verdadeiro motivo para a fuga de Bolsonaro”, relacionando a saída à proximidade do fim do mandato e às investigações contra o senador. Na França, o Le Monde registrou que, “para estupefação geral”, a fuga se materializou apenas dois dias depois da derrota presidencial.

Intervenção ianque e submissão da semicolônia
Toda a mecânica dessa escapada contou com a chancela oficial do imperialismo ianque. O Departamento de Estado anunciou que emitiria vistos para Flávio e seus familiares e permitiria sua entrada no EUA. A proteção junta o senador aos bolsonaristas que procuram no território da superpotência abrigo e condições para continuar suas articulações contra o Brasil.
Os registros de entrada acrescentaram um detalhe à operação: Flávio “Rachadinha” apresentou o passaporte diplomático brasileiro que a PF cancelara em 27 de outubro, depois de vencido o prazo para entregá-lo. Segundo o Metrópoles e a CNN, o documento utilizado consta nos registros da agência de controle de fronteiras do EUA. Na Argentina, conforme uma fonte policial ouvida pela emissora, o senador apresentara o passaporte italiano.
Flávio Bolsonaro, Fernanda e as duas filhas receberam autorização temporária de entrada por motivos “humanitários”, na categoria DT. Segundo os registros consultados pelo Metrópoles, a família poderá permanecer inicialmente até 27 de outubro de 2027. Sob a rubrica “humanitária”, Washington assegurou um ano de abrigo ao playboy que se recusou a responder no Brasil às determinações judiciais.
O canídeo Donald Trump validou publicamente o acolhimento de seu serviçal. Ao retornar de uma viagem de campanha ao Texas, declarou a jornalistas na Base Conjunta de Andrews: “Bem, eu aprovaria”. Voltou a tratar a eleição brasileira como estranha e a alimentar a contestação do resultado.

O envolvimento dos articuladores vinculados a Washington foi exposto pelo próprio Simón Levy. No artigo “Operação Alba” e em suas publicações sobre a fuga, atribuiu a organização ao secretário de Estado ianque, Marco Rubio, e apresentou a pressão econômica como parte da estratégia contra o Brasil. Ao tratar das investidas sobre Venezuela, Cuba e México, afirmou que Washington apertaria o Brasil “onde mais dói: no bolso”. A exposição do articulista estrangeiro revela o interesse imperialista em utilizar o fujão como marionete a partir do exterior. Levy celebrou a proteção: “Dos Estados Unidos, livre e em segurança, Flávio liderará a oposição contra Lula”. O patrocínio resguarda um político derrotado na disputa presidencial e desmoralizado pela própria covardia, mas útil aos propósitos de seus suseranos.
O diretor-geral de AND, Victor Bellizia, analisou no A Propósito #379, de 27 de outubro, que a acolhida ianque integra um plano de chantagem contra a nação. A administração Trump procura fragilizar Luiz Inácio para forçá-lo a capitular em pautas que os ianques classificam como de “segurança nacional”: a entrega das riquezas minerais e energéticas, o afastamento da China social-imperialista e a subordinação da Defesa brasileira à estrutura de guerra de Washington, sob o pretexto do combate ao “narcoterrorismo”.
O representante do jornal sintetizou o objetivo: “O Trump vai fazer uma baguncinha no Brasil para que o Luiz Inácio, para continuar, aceite fazer exatamente esse programa do Flávio”. A preservação do fugitivo, a pressão econômica e a atuação interna da extrema direita integram essa ofensiva.

O cerco econômico combina-se à ameaça política. O representante de AND apontou uma “ofensiva multilateral, multifacetada, para fragilizar o máximo possível o oportunismo no governo e fazer com que ele mesmo pegue a coleira do Trump e coloque no próprio pescoço e posicione-se de acordo”. Caso o governo acate as exigências e firme acordos lesivos, desmoraliza-se perante sua base sem se livrar do fantasma da deposição pelo impeachment.
A conciliação exigida pelo cabecilha ianque cobra concessões sobre riquezas e políticas fundamentais para o País. Enquanto isso, Luiz Inácio pretende fazer do novo Ministério da Segurança Pública o “carro-chefe” da próxima gerência, segundo a CNN. O fortalecimento do aparato repressivo ocupa justamente uma das áreas em que Washington exige alinhamento e procura impor sua agenda de guerra ao povo.
O diretor-geral demarcou os termos dessa rendição: “De nada adianta ter, no governo do Luiz Inácio, uma ótima relação com os Estados Unidos se ele for aplicar, no essencial, um programa similar ao do Flávio Bolsonaro, que é o que o Trump quer que ele faça”. Essas conciliações cobrarão um preço histórico.

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