
Com 70% dos votos (4 milhões de cédulas) apurados às 11h locais (6h em Brasília), a eleição em Israel parecia caminhar para um impasse nesta quarta-feira, 28. Os blocos liderados pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e por seu principal adversário, o ex-chefe do Exército Gadi Eisenkot, seguem praticamente empatados, enquanto os dois partidos palestinos ampliaram suas bancadas no Knesset, parlamento israelense.
Sem um vencedor claro, a formação do próximo governo pode levar semanas.
O bloco de Netanyahu conta agora com 54 cadeiras, ao passo que a oposição — que busca removê-lo do poder — é composta pelo “bloco da mudança”, liderado por Eisenkot, com 47 cadeiras, e pelos partidos palestinos, com 19 cadeiras.
O Knesset possui 120 cadeiras; são necessárias 61 para formar uma maioria.
Embora tenha perdido apoio desde a última eleição, em 2022, o partido Likud, de Netanyahu, ainda foi a legenda que obteve o maior número de votos, superando o partido Yashar, de Eisenkot. Contudo, um ponto crítico para o premiê é que seus aliados de extrema direita — a sigla Poder Judaico, do ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben–Gvir, e Sionismo Religioso, do ministro das Finanças, Bezazel Smotrich — registraram uma queda no apoio (bloco indicado em negrito abaixo).
Por outro lado, os partidos palestinos (indicados em itálico abaixo) tiveram um crescimento expressivo, especialmente a “lista conjunta”, uma aliança de nanicos de maioria árabe, que quase dobrou sua representação no parlamento.
- Likud (Netanyahu): 27
- Yashar (Eisenkot): 20
- Lista Conjunta: 13
- Juntos (Naftali Bennett): 11
- Democratas (Yair Golan): 8
- Yisrael Beiteinu: 8
- Shas: 7
- Judaísmo da Torá Unida: 7
- Poder Judaico: 7
- Sionismo Religioso: 6
- Ra’am: 6
Amplamente vista como um referendo sobre o governo ultradireitista de Netanyahu, a eleição de terça 27 teve a mais alta taxa de comparecimento às urnas em pelo menos 45 anos. Foi a primeira votação desde que os ataques terroristas do Hamas, em 7 de outubro de 2023, que deram início a três anos de guerra na Faixa de Gaza.
Embora os resultados iniciais indiquem um empate técnico entre governo e oposição, os líderes de ambos os blocos fizeram discursos triunfantes aos seus apoiadores durante a madrugada. Eisenkot adotou um tom desafiador: “Esta noite obtivemos a resposta: o público optou pela mudança”, declarou, em recado ao rival.
Poucas horas depois, Netanyahu afirmou que seu partido, o Likud, havia se tornado a maior força política de Israel. “Precisamos formar um governo de direita forte”, disse ele.
A contagem final ainda pode levar dias e a expectativa é que as tratativas para formar coalizões, de forma que um dos blocos consiga maioria para governar, levem semanas. Caso essas negociações fracassem, o país pode ter um segundo turno eleitoral — cenário que já ocorreu anteriormente (entre 2019 e 2022, houve cinco eleições).
Árabes podem ser fiel da balança
Projeta-se que dois partidos palestinos conquistem até 19 cadeiras no Knesset, em uma demonstração notável de força, dado que os cidadãos árabes de Israel compareceram em grande número às urnas na terça-feira. Antes da eleição, Netanyahu recorreu a apelos de cunho racial, explorando receios da direita ao afirmar que eleitores árabes estavam “tentando roubar as eleições”.
Contudo, Eisenkot e seus aliados resistem à ideia de formar uma coalizão com as siglas árabes, embora esse possa ser o único caminho para derrubar o primeiro-ministro.
Eisenkot já entreteu a ideia de aliar-se ao Ra’am, sigla árabe que tem se mostrado mais conciliadora em relação ao sionismo, chegando, por exemplo, a incluir um judeu sionista em sua chapa. No entanto, no cenário que se desenha, para formar maioria precisaria firmar um acordo com a lista conjunta — que adota uma postura muito mais assertiva quanto à identidade palestina e ao racismo vivenciado por seu eleitorado. Do contrário, terá que oferecer a Netanyahu uma tábua de salvação política, seja por meio de novas eleições ou da formação de um governo conjunto.
Alguns aliados de Netanyahu já sugeriram que o primeiro-ministro se una a Eisenkot e a outros centristas. Esse seria um cenário confortável para o líder israelense, desde que ele permanecesse no comando. Para o opositor, porém, associar-se a um homem que ele próprio classificou como inapto para liderar Israel teria um custo político elevado.
Em artigo para o jornal israelense Haaretz, a comentarista Noa Landau argumentou que o opositor caiu “na armadilha que Netanyahu preparou para ele ao longo da campanha eleitoral”.
https://veja.abril.com.br/mundo/apuracao-em-israel-continua-sem-vencedor-claro-e-eleicao-pode-terminar-em-impasse/
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