
247 – Os eleitores de Israel começaram a votar nesta terça-feira (27) em uma eleição que coloca em jogo a permanência do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu no poder, após os ataques de 7 de outubro de 2023, o genocídio em Gaza, a guerra contra o Irã e o crescente isolamento internacional do país.
Segundo a Reuters, as pesquisas apontam uma disputa apertada com a aliança liderada pelo ex-chefe do Estado–Maior das Forças Armadas Gadi Eisenkot, sem um caminho claro para a formação de maioria parlamentar.
As urnas abriram às 7h e devem fechar às 22h, no horário local. De acordo com o Comitê Central Eleitoral, 7,3 milhões de israelenses estão aptos a votar, incluindo cerca de 330 mil que poderão participar pela primeira vez.
Com 19 anos acumulados à frente do governo, Netanyahu tenta transformar sua atuação nas guerras e a proximidade com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em respaldo para continuar no cargo. Seu partido, o Likud, disputa o controle do Parlamento ao lado de aliados de direita e de extrema direita.
Eisenkot, principal adversário do primeiro-ministro, reúne apoiadores do centro e da direita e também defende uma política de segurança rigorosa. A disputa contrapõe a continuidade do governo à cobrança por responsabilidade pelas falhas que permitiram os ataques do Hamas e pela condução do país nos três anos seguintes.
Aliança com Trump no centro da campanha
Netanyahu apresentou a relação com Trump como um dos principais argumentos de sua candidatura. O presidente norte-americano o apoiou e colocou os Estados Unidos ao lado de Israel na guerra contra o Irã.
No domingo, o primeiro-ministro afirmou que Trump estaria disposto a agir novamente para eliminar “definitivamente” a ameaça iraniana, mas condicionou essa possibilidade à sua própria permanência no poder.
Eisenkot reagiu e acusou o adversário de “se apoiar em uma campanha de disseminação do medo, mentiras e ameaças”. O ex-chefe militar afirmou confiar que Trump trabalharia “em plena cooperação com qualquer líder escolhido pelo povo”.
Apesar das divergências sobre Netanyahu, Eisenkot também sustenta que o próximo governo precisa impedir o Irã de adquirir capacidade nuclear militar. Para isso, admite tanto o emprego da força quanto uma solução diplomática apoiada pelos Estados Unidos.
Formação do governo depende de alianças
A eleição define a composição do Parlamento israelense, de 120 cadeiras, e a capacidade dos principais blocos de reunir apoio para governar. A fragmentação partidária mantém aberta a possibilidade de impasse, mesmo após a divulgação dos resultados.
Para formar uma nova coalizão, Netanyahu poderá depender novamente dos líderes de extrema direita Itamar Ben–Gvir e Bezalel Smotrich. Os dois são alvo de sanções de alguns países ocidentais, que os acusam de incentivar a violência contra palestinos. O partido Poder Judaico, de Ben–Gvir, ganhou apoio nas pesquisas.
Se nenhum dos principais concorrentes conseguir viabilizar um governo, Netanyahu poderá continuar como primeiro-ministro interino até a realização de novas eleições no próximo ano.
“Minha expectativa é que tenhamos apenas uma pequena maioria para qualquer um dos lados. Nenhuma vitória esmagadora”, disse à Reuters o analista político israelense Amotz Asa-El, do Instituto Shalom Hartman.
A participação da minoria árabe também pode influenciar a distribuição de forças. Uma presença elevada desses eleitores, cidadãos israelenses de origem palestina, pode favorecer o campo contrário ao atual primeiro-ministro.
Eisenkot descartou uma parceria com partidos árabes, alegando ausência de valores compartilhados. Analistas ouvidos pela Reuters, porém, consideram possível que essas legendas sustentem externamente um governo minoritário liderado por ele para assegurar a saída de Netanyahu.
Cobrança pelas falhas de 7 de outubro
Entre os opositores do governo, a responsabilização pelas falhas de segurança de 7 de outubro ocupa lugar central.
Mali Hajaj, funcionária do Ministério da Educação e apoiadora de Eisenkot, defendeu uma investigação nacional sobre os acontecimentos. “O mais importante é a criação de uma investigação nacional, porque é daí que virá nossa recuperação”, afirmou.
Outra eleitora, Lisa Tortor, disse esperar a saída do primeiro-ministro para que seus sucessores possam enfrentar as consequências de sua gestão. Segundo ela, a mudança permitiria que “formem um novo governo e comecem a reparar os danos que Bibi causou aos judeus em todo o mundo, a Israel e à imagem de Israel”. Bibi é o apelido de Netanyahu.
Entre os apoiadores do Likud, a avaliação é diferente. Nof Gabay, de 18 anos, rejeitou a responsabilização do primeiro-ministro pelos ataques e o classificou como “o homem certo para o Estado de Israel”.
“Netanyahu conduziu a guerra da melhor maneira possível”, declarou.
Guerras e divisões internas marcam a votação
O genocídio praticado por Israel a partir de 7 de outubro de 2023 destruiu grande parte da Faixa de Gaza. Segundo as autoridades de saúde do território, os ataques de Israel mataram 74 mil pessoas.
O período também foi marcado por operações israelenses contra o Hezbollah, no Líbano, e pela escalada militar com o Irã. Em 2025, Israel realizou uma campanha aérea de 12 dias contra instalações nucleares iranianas. Neste ano, forças israelenses e norte-americanas participaram de uma nova guerra contra o país.
Eisenkot se diferencia de Netanyahu ao criticar a violência de colonos judeus contra palestinos na Cisjordânia ocupada, que aumentou desde 2023 e agravou tensões com países ocidentais. Ele também rejeita os atuais parceiros de extrema direita do primeiro-ministro. Mas, assim como quase todos os partidos liderados por sionistas em Israel, se opõe à solução de dois Estados que orientou décadas de negociações com os palestinos.
O desgaste de Netanyahu alcançou antigos redutos do Likud, onde eleitores descontentes passaram a fazer campanha de porta em porta contra sua continuidade. Parte desse afastamento também está ligada ao prolongado julgamento por acusações de corrupção, que o primeiro-ministro nega.
https://www.brasil247.com/mundo/netanyahu-disputa-sobrevivencia-politica-em-eleicao-acirrada-em-israel/
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