
Lula conquistou nas urnas o direito de governar o Brasil pela quarta vez. A vitória sobre Flávio Bolsonaro encerra a disputa pelo voto e abre uma cobrança que começa imediatamente: como o presidente pretende enfrentar os problemas da economia?
Na minha avaliação, a reação da campanha nas redes sociais teve papel importante na virada do segundo turno. André Janones ganhou protagonismo com o “Exército do Lula”, mobilizando apoiadores e dando à militância uma capacidade de comunicação que a campanha havia aproveitado pouco até o primeiro turno.
A estratégia ajudou a transformar simpatizantes em participantes da campanha. Gente que compartilhava mensagens passou a convocar outras pessoas, defender o candidato e estimular o comparecimento às urnas. A juventude, agradecida por Lula no discurso da vitória, participou desse movimento.
Não se pode atribuir o resultado inteiro às redes. Mas houve uma mudança de disposição da campanha, que recuperou a iniciativa na reta final. Agora, o presidente precisará demonstrar a mesma capacidade de reação diante de um problema que a comunicação, sozinha, não resolve.
O crescimento precisa de sustentação
No pronunciamento após a vitória, Lula afirmou que governará para todos e prometeu mudar a maneira de governar. Falou de investimentos, educação e desenvolvimento. Faltou, porém, uma sinalização concreta sobre como pretende ajustar as contas públicas.
Não se esperava um programa econômico completo na noite da eleição. Mas, diante da importância do assunto, um compromisso claro com a trajetória dos gastos e da dívida teria ajudado a reduzir a incerteza.
O que me preocupa é a possibilidade de Lula insistir na ideia de que o crescimento resolverá o desequilíbrio das contas e abrirá, por si só, o caminho para juros menores. Se essa for a aposta, estará cometendo um erro de diagnóstico.
Uma economia que cresce mais e pode melhorar suas contas. Isso, entretanto, depende de como crescem também as despesas. Se os gastos avançam sem sustentação e a dívida inspira desconfiança, o investidor cobra juros maiores para financiar o governo.
Estimular o consumo quando a produção não consegue acompanhar pode pressionar os preços. Nesse caso, o Banco Central terá mais dificuldade para reduzir a taxa de juros. O resultado pode ser o oposto do prometido: crédito caro por mais tempo e menos disposição para investir.
Ajustar as contas exige escolher prioridades, avaliar despesas e dar previsibilidade ao orçamento. É isso que permite sustentar políticas sociais e investimentos sem recorrer continuamente a mais dívida ou mais impostos.
O mundo cobra mais dos países vulneráveis
O quarto mandato começará em 2027, mas a avaliação sobre ele já está em curso. Na abertura dos mercados após a eleição, os investidores procurarão sinais sobre a equipe econômica e as primeiras decisões do presidente reeleito.
Não há como cravar antecipadamente o comportamento do dólar ou da Bolsa. Há, porém, um risco claro: a ausência de compromisso fiscal aumenta a desconfiança, pressiona o câmbio e encarece o financiamento da economia.
O ambiente internacional torna essa tarefa mais difícil. Tensões geopolíticas e o risco de novas pressões sobre o petróleo podem alimentar a inflação e aumentar a resistência à queda dos juros americanos, ou mesmo exigir novas altas.
Quando os Estados Unidos oferecem remuneração maior, os investidores ficam mais seletivos para aplicar em países como o Brasil. Quem apresenta mais incerteza precisa pagar mais para atrair recursos.
Há também o componente político. Caso Donald Trump perca o controle de uma das Casas do Congresso nas eleições de meio de mandato, vejo o risco de uma reação mais confrontadora. É uma possibilidade, não um desfecho definido, mas reforça a necessidade de o Brasil reduzir suas próprias vulnerabilidades.
Para o produtor rural, isso chega ao custo do financiamento, do diesel, dos fertilizantes e da próxima safra. Um dólar mais alto pode favorecer a receita de exportação, mas também encarece insumos e compromissos ligados à moeda americana. A margem depende dessa conta inteira.
A confusão eleitoral prolonga o confronto
O início desse período ainda carrega o desgaste provocado pela condução da prorrogação da votação. A decisão de Cristiano Zanin e os esclarecimentos posteriores sobre sua aplicação produziram incerteza num momento em que o eleitor precisava de orientações inequívocas.
É preciso distinguir as situações. Garantir o voto de quem já estava na fila é diferente de permitir a continuidade da votação até as 19h nas seções ainda abertas. A orientação final preservou as urnas encerradas e estendeu o funcionamento das demais.
Na minha avaliação, esses limites deveriam ter sido comunicados com clareza desde o início. A dificuldade de aplicação e a demora nos esclarecimentos ampliaram o espaço para questionamentos.
Flávio Bolsonaro não reconheceu a vitória de Lula em seu pronunciamento e anunciou que buscará a anulação da eleição. Cabe registrar que sua campanha também havia pedido prorrogação em localidades atingidas pelas chuvas. Criticar a condução do episódio é legítimo; demonstrar uma irregularidade capaz de alterar o resultado exige provas e análise da Justiça.
A confusão oferece combustível ao confronto político e dificulta a pacificação prometida pelo vencedor.
O agro vai cobrar resultados
Parte expressiva das lideranças do agronegócio apostou em Flávio. Com Lula reeleito, o setor precisará transformar suas demandas em negociação e cobrança. A representação rural no Congresso permanece forte, no Legislativo que saiu das urnas mais à direita.
Isso amplia a capacidade de defender crédito, seguro rural, segurança jurídica e infraestrutura. Mas a composição ideológica do Congresso não garante uma oposição uniforme. As negociações por apoio, espaços e prioridades começarão a reorganizar as relações com o Executivo.
O produtor precisará acompanhar o que seus representantes entregam. A afinidade política tem valor, mas a prestação do financiamento vence numa data determinada, independentemente dos acordos em Brasília.
Lula terá de governar também para quem não votou nele. Isso inclui ouvir o campo e compreender que produzir exige condições econômicas que nenhum discurso substitui.
Se reconhecer que a economia pode ser o calcanhar de Aquiles de seu quarto mandato, terá a oportunidade de corrigir a rota. Se apostar que a força da vitória e o crescimento resolverão tudo, poderá impor ao país um período de frustração e sacrifício. A cobrança começa agora.
*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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https://www.canalrural.com.br/opiniao-noticias/lula-venceu-a-economia-sera-seu-calcanhar-de-aquiles/
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