
247 – Diante do definhamento acelerado do consumo interno e do tombo nas atividades da indústria e do comércio, a economia da Argentina aproxima-se com velocidade de um quadro de recessão técnica no terceiro trimestre do ano, informa a Exame.
O aprofundamento do colapso econômico no país vizinho ocorre sob a gestão do ultraliberal Javier Milei, aliado político de Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência do Brasil. A condução econômica da Argentina é abertamente tratada como referência pela campanha bolsonarista; a ex-presidente da Caixa Econômica Federal e coordenadora do plano de governo de Flávio, Daniella Marques, já declarou publicamente que as reformas de Milei servem de inspiração para as propostas do candidato.
Os dados oficiais apresentados na quarta-feira (21) pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) confirmam o tamanho do impasse produtivo no país. A produção argentina registrou uma tímida expansão de apenas 0,1% em agosto frente a julho. A estagnação segue-se imediatamente a um recuo severo de 2,8% verificado no mês anterior.
A eventual confirmação de novo resultado negativo entre julho e setembro selará dois trimestres consecutivos de retração — já que o Produto Interno Bruto (PIB) argentino amargou queda de 0,6% no segundo trimestre em relação aos três meses anteriores. Pela regra macroeconômica, o desempenho negativo sequencial caracteriza formalmente a recessão técnica.
Para consultorias e analistas do setor privado, a reversão desse quadro no curto prazo é vista como praticamente inviável. Conforme projeção técnica emitida pela SBS Research, a atividade econômica local necessitaria de um salto de 8,6% em setembro, em relação a agosto, para impedir a contração do PIB no consolidado do terceiro trimestre. Em relatório repassado à imprensa internacional, a consultoria foi taxativa: “por isso a recessão técnica é praticamente um fato”.
Na comparação com agosto de 2025, o desempenho geral encolheu 1,7%, registrando a segunda queda interanual consecutiva. No acumulado dos primeiros oito meses do ano, o indicador ainda sustenta saldo positivo de 1,2%.
A radiografia setorial do Indec evidencia o desastre disseminado pela infraestrutura produtiva argentina: 11 dos 15 setores acompanhados recuaram em agosto na comparação anual. Os piores desempenhos recaíram sobre os seguintes segmentos:
- Pesca: –15,7%;
- Atividade financeira: –3,8%;
- Comércio: –3,5%;
- Indústria: –3,2%.
Em sentido inverso, as únicas expansões notáveis focaram-se na extração de mineração e hidrocarbonetos, com alta de 11,1%, e no setor de hotéis e restaurantes, que avançou 3,1%.
A discrepância dos indicadores evidencia um modelo focado tão somente no setor agroexportador e extrativo, enquanto todos os ecossistemas industriais e de serviços dependentes do mercado consumidor doméstico continuam em retração profunda.
Na visão de Santiago Casas, economista-chefe da EcoAnalytics, o avanço isolado do petróleo e dos minérios é incapaz de conter a sangria das demais cadeias produtivas do país. “O dado de atividade de agosto foi muito ruim. Após o desastre de julho, era razoável esperar um repique que moderasse a queda bimestral. Mas isso não ocorreu, e a economia caminha para uma recessão técnica entre o segundo e o terceiro trimestres”, apontou o analista.
Casas enfatiza que o estrangulamento da demanda interna permanece como o principal gargalo para qualquer retomada. O especialista alerta que, sem a expansão real do crédito, tanto o comércio varejista quanto os produtores locais não conseguirão esboçar reação.
O diagnóstico de paralisia é reiterado pela consultoria LCG, que aponta a derrocada do poder de compra dos trabalhadores com carteira assinada como o grande entrave para o consumo doméstico. A empresa destaca ainda que os investimentos produtivos privados registram cinco trimestres consecutivos de retração no país.
A consultoria faz menção direta ao impacto recessivo provocado pela política de austeridade promovida pelo governo. Com a arrecadação tributária em queda, o corte de gastos públicos foi aprofundado para preservar o superávit fiscal primário, agravando a retirada de liquidez e dinamismo do mercado interno. “Não esperamos que a economia mude completamente a dinâmica dos últimos meses do ano”, concluiu a LCG.
Em razão do travamento dos motores econômicos, a LCG reduziu drasticamente sua estimativa de crescimento do PIB argentino para o encerramento de 2026, baixando de 1,5% para cerca de 1%. O número desidrata a previsão oficial de 3% incluída pelo governo no projeto orçamentário do próximo ciclo e confirma uma acentuada desaceleração em relação ao crescimento de 4,4% observado no ano anterior.
https://www.brasil247.com/economia/argentina-caminha-para-nova-recessao-sob-o-governo-milei/
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