

“Street Fighter” chegou aos cinemas e tinha praticamente todos os elementos à disposição para um ótimo filme. O material de origem é reconhecível, os lutadores possuem identidades visuais fortes e o universo da franquia oferece espaço suficiente para uma aventura descompromissada, cheia de exageros e confrontos espetaculares.
A produção conhece a aparência dos personagens e entende a importância de transportar para a tela os elementos que fizeram a série conquistar tantos jogadores. Os figurinos, os penteados, os golpes especiais, tudo está ali, só não souberam usar seus pontos forte em uma boa narrativa.
O resultado é uma produção que frequentemente deixa a impressão de que poderia ter sido muito melhor do que aquilo que efetivamente apresenta. Os jogos nunca dependeram de uma trama elaborada para conquistar seu público, bastava algo funcional, com motivações compreensíveis, confrontos bem distribuídos e personagens que tivessem alguma utilidade para o andamento da aventura.
O que deveria ser uma celebração da franquia acaba se tornando uma experiência irregular, na qual os acertos visuais convivem com problemas que comprometem boa parte do potencial da adaptação.
Um roteiro perdido entre o humor e a falta de ritmo
O roteiro parece não saber muito bem para onde quer ir. Em alguns momentos, arrasta situações que poderiam ser resolvidas mais rapidamente, em outros, pula acontecimentos sem dar tempo para que tenham algum peso. O resultado é uma história confusa, que tenta construir conflitos (irônico, não?), mas raramente consegue desenvolvê-los de maneira satisfatória.
A relação entre Ryu e Ken deveria ser um dos pontos fortes da trama. Os dois têm uma história em comum, personalidades diferentes e motivos para entrar em conflito. O filme até tenta explorar essa dinâmica, mas insiste nos mesmos dilemas sem acrescentar muita coisa. Em vez de aprofundar a relação, fica dando voltas. Uma hora, a paciência do espectador também precisa de um descanso.

O humor segue o mesmo caminho. A produção tenta ser irreverente, mas nem sempre entende a diferença entre uma piada e uma interrupção inconveniente. As insinuações sexuais aparecem com insistência, sem que exista uma construção cômica capaz de fazê-las funcionar. O exagero pode ser divertido quando existe propósito; aqui, muitas vezes, parece apenas uma tentativa de arrancar risadas no grito.
Essa falta de equilíbrio compromete a experiência até o final. O filme parece interessado em abrir caminho para novas histórias, mas não entrega um encerramento suficientemente satisfatório para a aventura que acabou de contar. Deixar portas abertas para uma continuação é válido. Só seria interessante fechar a primeira porta antes de sair abrindo outras.
As cenas de combate estão entre os melhores momentos do filme, com golpes característicos e poderes especiais que fazem jus à franquia. O problema é que há poucas lutas para uma adaptação de “Street Fighter”. A produção perde tempo com situações pouco relevantes e deixa confrontos interessantes de fora da cena… em um filme de luta…. como isso se explica?
O excesso de personagens também prejudica a história. Muitos aparecem apenas para marcar presença, sem contribuir de verdade para a trama. Andrew Koji e Noah Centineo conseguem destacar as diferenças de seus protagonistas, enquanto Callina Liang esbanja carisma como a espiã chinesa Chun-Li, mas o roteiro desperdiça o potencial do trio.
O destaque fica com as cenas animadas inspiradas nos animes, que mostram o passado de Ryu e Ken com seu mestre Gouken, e a batalha contra o vilão Akuma. Com visual fluido e cenas bem construídas, esses trechos traduzem melhor a essência dos jogos e dão mais força aos personagens. Akuma, em especial, ganha uma presença ameaçadora, mas é uma pena que isso não sustenta o filme.
A comparação com o live-action é inevitável, pois a animação tem identidade e propósito, definitivamente são as melhores partes de todo o longa, enquanto o restante se perde entre piadas deslocadas, conflitos repetitivos e personagens mal aproveitados. No fim, o desenho parece entender melhor da franquia de videogames do que o próprio filme, o que é uma pena.
Uma adaptação que precisava de mais foco e menos excessos
Outro grande problema é a duração de quase duas horas. O filme demora para desenvolver conflitos que pouco avançam, enquanto situações que mereciam mais atenção são resolvidas depressa. No fim, parece longo quando não deveria e apressado quando precisava respirar, o ritmo não compensa nada.
Para completar o combo, a edição também não ajuda. Algumas cenas parecem se conectar de maneira estranha, dando a impressão de que faltam pedaços entre um acontecimento e outro. Há momentos em que a história insiste no que já entendemos, mas economiza justamente nas partes que poderiam fazer diferença.
Uma pena ver mais uma adaptação da franquia para o cinema que não conseguiu acertar na execução, principalmente por estarmos vivendo um momento de boas adaptações de jogos e outras mídias com extrema fidelidade e boa história, essa última parte, foi o que realmente faltou aqui. Parece que a prioridade foi colocar todo mundo na festa, mesmo sem espaço para conversar com os convidados.
Concluindo, apesar das boas ideias, ainda falta organização para aproveitá-las. O humor falha, o ritmo oscila e os confrontos são menos frequentes do que deveriam. A comparação com “Mortal Kombat II”, que chegou aos cinemas em maio de 2026, é inevitável: enquanto a franquia rival aposta mais na ação e na brutalidade dos jogos, “Street Fighter” parece esquecer que seus lutadores precisam entrar em combate.
Se houver uma continuação, o caminho é simples: menos enrolação, mais lutas e uma história que saiba o que fazer com seus personagens. Afinal, estamos falando de um filme baseado em um jogo de luta. Seria pedir demais que eles lutassem um pouco mais?
https://www.folhavitoria.com.br/cultura/filmes/street-fighter-acerta-no-visual-mas-desperdica-seus-lutadores-com-roteiro-confuso/
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