
O monopólio de imprensa Metrópoles recebeu R$ 20 milhões do Banco Master em um contrato publicitário e submetia reportagens ao magnata Daniel Vorcaro antes da publicação, acolhendo seus pedidos de alteração. Mensagens apreendidas pela Polícia Federal (PF) mostram a linha direta do ex-banqueiro com Lilian Tahan, diretora executiva do grupo.
Revelados pelo UOL em 15 de outubro, os diálogos indicam que o contrato, acertado em novembro de 2024, foi quitado em 2025, em parcelas de R$ 5 milhões. Pelo menos 14 textos foram enviados previamente a Vorcaro; 11 sofreram alterações a pedido dele. Outras duas matérias foram publicadas por sua solicitação.
À reclamação da diretora de marketing sobre o preço, Vorcaro respondeu: “Coisa mais importante [da] nossa vida é esse Metrópoles”.

Ex-banqueiro editava o perfil do fiscal
Entre os alvos do patrocinador estava Renato Gomes, então diretor do Banco Central responsável por analisar a compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB), instituição pública controlada pelo governo do Distrito Federal. Vorcaro participava da edição de reportagens sobre o funcionário que examinava seus negócios.
Em um perfil de Gomes, pediu que fosse retirada a referência à possível falência do Master e incluídas especulações de que o diretor poderia ir trabalhar para um grande banco após deixar o cargo. Os pedidos foram incorporados.
Questionada pelo UOL, Tahan tentou apresentar a submissão dos textos ao patrocinador como uma rotina de checagem com fontes. Uma “checagem” peculiar: ao propor uma matéria comparando os balanços de Master e BRB, perguntou a Vorcaro: “Ajuda ou atrapalha?”. O banqueiro aprovou a ideia e pediu para ler o texto antes da publicação. Ela concordou.
A executiva também negou relação entre o contrato publicitário e a cobertura, citando reportagens críticas às empresas de Vorcaro. Para justificar o perfil de Gomes, invocou a oposição do diretor à compra do Master pelo BRB e a importância do banco público para Brasília. O interesse jornalístico era tamanho que o dono do banco fiscalizado escolhia o que cortar e o que acrescentar ao perfil do fiscal.
Processo criminal para incomodar repórter
A solicitude com o patrocinador também apareceu diante de uma investigação de outro veículo. Em 20 de agosto de 2025, Tahan procurou Vorcaro para comentar uma reportagem de Aguirre Talento, do Estadão, sobre suspeitas de fraude no Master apontadas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Sua preocupação era a repercussão da manchete.
O banqueiro anunciou que pretendia processar criminalmente o jornalista. A diretora do Metrópoles respondeu: “Não tem nada mais chato para o repórter que responder criminal”. A reportagem que irritara Vorcaro tratava de suspeitas em aportes de aproximadamente R$ 2,1 bilhões em empresas sem capacidade econômica aparente para justificar os valores.
A Globo e a limpeza pela demissão
O caso amplia o escândalo das relações entre os monopólios de imprensa e o Master. Na Globo, Frederic Kachar, então diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio, oferecia publicações favoráveis a Vorcaro enquanto cobrava contratos publicitários. Para promover a empresa da então namorada do banqueiro, prometeu pautar Vogue, Marie Claire e Ela. As matérias saíram.
Após o vazamento, a Globo anunciou a demissão de Kachar em 15 de outubro, reconheceu seus 29 anos na empresa e assegurou que a cobertura do Master era “crítica, isenta e independente”. O banqueiro, ao receber as matérias sobre a empresa de sua namorada, já havia dado seu parecer: “Ficaram ótimas, obrigado”.

ACERCA DEL CORRESPONSAL
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