
A advogada Roberta Luschinger, amiga pessoal de Fábio Luiz Lula da Silva, filho do presidente da República, afirmou em entrevista à CNN Brasil que o presidente Lula é mentiroso e que seu filho, Fábio Luiz Lula da Silva, se encontrou com ministros do governo.
“É público, é notório que o Fábio Luís, o Lulinha, inúmeras vezes esteve com ministros, inclusive viajou para a casa de ministro, do ministro Camilo [Santana]. Então, Lula é um grande mentiroso quando fala ‘ela é uma pilantra, mas meu filho não. Meu filho jamais se sentava com ministro’. Mas o filho dele sentava semanalmente com ministro, seja para trocar figurinha, para trocar qualquer tipo de diálogos”, disse.
Roberta afirmou ainda que ele já participou e ouviu troca de idéias para liberação e comercialização de extrato de maconha, conhecido como canabidiol. A advogada atuava nos bastidores em Brasília para que o produto fosse comprado pelo Ministério da Saúde.
Roberta revelou que decidiu falar agora porque vem sendo agredida no processo de investigação e porque o presidente da República deu entrevistas classificando-a como “pilantra”. Tive de tomar minha própria defesa, porque venho sendo constantemente ameçada de morte, sofrendo reprimendas, tentando ser calada. Estou fazendo isso pela segurança das minhas duas filhas”, justificou.
Em seu apartamento, a lobista apresentava ar de indignação ao tratar das falas de Lula em cadeia nacional. “A partir do momento em que o presdiente da República marca na minha testa que eu sou uma pilantra, ele abre e dá um apito para todo esse tipo de agressão. Qualquer coisa que acontecer comigo vai ter a mão do Presidente da República, vai ter o X que ele fez na minha testa. Sou uma mulher sozinha. Ele está me jogando dentro de um circo com leões para eu ser devorada. Uma atitude covarde, de mau caráter, que é o que ele é.
Amiga próxima de Lulinha, com quem costumava fazer viagens, Roberta disse que ela apresentou o filho do presidente ao empresário Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”. “Conheci o Antonio Camilo para apresentar um serviço para ele, não era o Careca do INSS, era um empresário de sucesso. Apresentei ele para o Fábio em caráter social, nada para negócios. Se após aquilo, se desvencilhou em algum negócio, foi entre eles, não comigo”.
A advogada, contudo negou que tenha estado junto em algum dos encontros para discutir a liberação de canabidiol. “Ele estava comigo o tempo inteiro, porque embora eu seja pilantra, na visão do pai dele, para ele não sou pilantra, mas uma amiga. Ou era, já não sei”.
Luchsinger mantinha uma mansão alugada em Brasília, onde se hospedava junto com Fábio Luiz, a quem classificou como melhor amigo. Segundo a lobista, o quarto de um ficava na frente do outro, e as famílias tambémparticipavam desses encontros. Na residência, ela diz ter recebido os ministros Frederico Siqueira Filho, das comunicações, Leonardo Barchini, da Educação e o ex-chefe de gabinete de Lula Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola.
“Muitos pediam apoio em relação ao chefe de gabinete, em função da dificuldade que a maioria dos ministros têm ou tinham na época, em relação ao Presidente, recorriam a mim para que ajudasse com o Marcola para conseguir uma agenda, ou prioridade”, disse Luchsinger.
Ao comentar o fato inusitado de interferir informalmente na agenda do Planalto, Luchsinger partiu para o ataque. “Era um jeito até meio bagunçado e amador de agir. Um presidente da República que não sabe o que acontece na antessala dele, ou é um mentiroso em dizer que não sabe, ou está senil, esclerosado, como disse o Ciro Nogueira outro dia”.
Luchsinger revelou ainda o desejo de colaborar com as investigações por meio de uma delação premiada e garantiu que não irá poupar ninguém, nem o filho de Lula. “Não serei eu o boi de piranha que tanto querem, colocar tudo em cima de mim. Então assim: o que eu fiz, se for crime, vou responder ao devido processo legal. Na minha cabeça não existe crime. Eu, como investigada por ele [Lula] fui condenada. É um mau caráter, um canalha, um covarde, com uma mulher que tem duas filhas e nunca fez um mau para esse país e nem para ele”.
Na entrevista, Roberta ainda acusou o presidente da República de ser machista por, segundo ela, ter afastado a única mulher envolvida no escândalo. “Se eu fosse o presidente da República e tivesse realmente o compromisso com a verdade, falava: ‘quem sentou com essa pilantra?’ Eu sentei, eu sentei, eu sentei. Então afasta, afasta, afasta. ‘Vão se defender, se explicar porque isso ta mal explicado’. O que ele [Lula] fez? Ah é um santo, ela não, ela é a pilantra que ofereceu a maçã envenenada para meus ministros,” disse.
Roberta ainda levantou dúvidas sobre a relação entre Lulinha e o presidente da Empresa de Construção Brasil (ECB), que integra o grupo português Mota–Engil, Amauri Pinha. Sem citar provas, ela disse que ouviu conversas de que o filho do presidente teria atuado para incluir a empresa em contratos com ministérios. A relção entre Pinha e Lulinha teria se dado pelo fato de os dois serem vizinhos.
Relações com Lulinha e o governo
Reportagem exclusiva de VEJA revelou que a lobista utilizava as relações de amizade com petistas de alto escalão, para impulsionar negócios milionários junto ao governo. A quebra do sigilo telefônico da advogada trouxe à tona mensagens em que ela tentava fechar contratos com a ajuda do filho do presidente e de Fernando Bittar, amigo e antigo sócio do primogênito, conhecido também na época da operação Lava–Jato por ser um dos proprietários do célebre sítio de Atibaia, onde a família Lula da Silva se hospedava.
De acordo com o relatório da investigação da PF, não há dúvida de que Roberta mantinha uma sociedade oculta com Lulinha e Bittar para intermediar negócios. “Os elementos probatórios obtidos no curso da investigação revelam a existência de um núcleo de atuação permanente e coordenada composto por Roberta Moreira Luchsinger, Fabio Luis Lula da Silva e Fernando Bittar, voltado à interlocução de interesses privados perante agentes e órgãos da Administração Pública Federal”, concluíram os delegados.
Nas mensagens, a lobista chegou a contar que o presidente teria lhe oferecido um cargo no governo. A oferta, porém, teria sido recusada. “Fui das poucas pessoas q o Lula chamou e perguntou: escolhe onde vc quer ficar. (…) Eu disse: aonde eu tô. Na minha sociedade com Fábio e Fernando.” E explicou o porquê: “Tô em cargo nenhum e ando onde quero”, disse em conversa com um empresário, em 2024.
A lobista deixava bem claro a seus interlocutores o nível da relação que mantinha com o filho do presidente. “Fefe (Fernando Bittar), Fábio e eu somos uma coisa só. Se um fala vai, tds (todos) vão. A gente é mesmo irmão”, escreveu ela em um dos diálogos anexados ao inquérito. Roberta esclareceu como seria a participação de Lulinha no esquema: “Fábio não faz nada. Ele só entra em campo qdo (quando) precisa. Tem q se preservar”.
Apesar das evidências, Lula chegou a afirmar, em entrevista, que não conhecia Roberta e disse que nunca a havia visto. Fotos publicadas pela própria advogada em suas redes sociais, no entanto, registram encontros com o presidente em diferentes ocasiões.
Jóias e canabidiol
Contratada por Antunes, Roberta tentou convencer o governo a regulamentar o uso de canabidiol no país. Egresso do ramo farmacêutico, o executivo acusado de tungar os benefícios de milhões de aposentados, articulava a realização de um negócio bilionário junto ao Ministério da Saúde. Para o plano dar certo, era preciso destravar resistências políticas e mudar certas regras. Roberta explica o caminho que ela trilhava para driblar os problemas: “Eu trabalho a política via Palácio. Eu sou boa de costura política”.
A lobista acionou Lulinha para acelerar a regulamentação para a produção e venda de medicamentos à base de canabidiol. Resolvido esse problema, a segunda etapa do projeto era “convencer” o Ministério da Saúde a contratar uma empresa de Camilo Antunes para fornecer os remédios — um negócio superior a 1 bilhão de reais. “Ontem eu disse para Fábio: Antonio tá pressionando e acho bom vc se mexer”, escreveu a lobista em 23 de janeiro de 2025.
Coube ao então chefe do gabinete de Lula, Marcola, marcar uma reunião no Ministério da Saúde. Nesse mesmo período, Roberta passou a pagar contas pessoais do auxiliar do presidente. Entre fevereiro e novembro de 2024, foram 217 098 reais em faturas de cartão de crédito, boletos de apólice de seguro, financiamento do carro, um par de brincos e um pingente de diamantes com que ele presenteou a esposa. A lobista Roberta já confirmou a história do empréstimo pessoal, mas disse que não pode trazer mais detalhes sobre o caso porque o inquérito corre sob sigilo. Até onde se sabe, Marcola não é investigado no caso.
(Reportagem em atualização)
https://veja.abril.com.br/politica/amiga-de-lulinha-diz-a-cnn-que-lula-mentiu-e-que-filho-de-presidente-se-reuniu-com-ministros/
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