
Eleições 2026 definirão se trajetória para o Desmatamento Zero continua, alerta Greenpeace Brasil; Dados do Prodes foram divulgados nesta sexta (16)

O Brasil alcançou um marco histórico no combate ao desmatamento da Amazônia. Os dados parciais do Prodes, divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) nesta sexta (16), mostram que o desmatamento no bioma chegou a 3.335 km² entre agosto de 2025 e julho de 2026, uma redução de 41,8% em relação ao período anterior e a menor taxa registrada desde o início da série histórica, em 1988.
O resultado confirma uma trajetória de queda iniciada nos últimos três anos e mostra que a destruição da floresta não é inevitável, mas sim responde às escolhas feitas pelos governos atuais: presença ou ausência da fiscalização, existência ou não de políticas públicas, aplicação ou desmantelamento de leis e a capacidade das instituições de agir diante de quem destrói a floresta.
Para o Greenpeace Brasil, o resultado deve ser celebrado como uma conquista de toda a sociedade brasileira. Mas também deve ser compreendido como evidência de que é possível reduzir o desmatamento em escala quando as políticas de proteção ambiental são bem implementadas, as instituições são fortalecidas e os instrumentos de fiscalização funcionam.
“Este marco histórico do Prodes 2026 é o resultado direto de escolhas políticas, como o investimento em fiscalização, a manutenção de políticas públicas eficazes e o fortalecimento contínuo das instituições de controle, como o Ibama e o ICMBio. Manter a queda do desmatamento dependerá muito da atuação do governo federal e da forma como ele conduzirá o tema. Colocaremos tudo em risco se tivermos um governo antiambiental novamente”, afirma a coordenadora de Desmatamento Zero do Greenpeace Brasil, Cristiane Mazzetti.

Um resultado de escolhas políticas
A queda do desmatamento foi construída sobretudo por decisões de políticas públicas, e os números do PRODES mostram duas trajetórias opostas.
Entre 2019 e 2022, o Prodes registrou 45.612 km² desmatados, uma taxa 60% maior do que a do período anterior. Durante esse período, o Poder Público desmantelou instrumentos de proteção e o desmatamento cresceu. O Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAm) foi descontinuado, o comitê orientador do Fundo Amazônia foi extinto, a participação da sociedade civil em conselhos como o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) foi reduzida, e a criação de núcleos de conciliação ambiental e de descontos em multas travou a aplicação de sanções, o Ibama foi enfraquecido e orçamentos para a pauta ambiental foram reduzidos.
A partir de 2023, entre o Prodes 2022/2023 e o Prodes 2025/2026, a taxa total registrada foi de 24.648 km² , uma queda de 45,96 % em comparação aos quatro anos anteriores. O resultado acompanha a retomada de instrumentos de comando e controle, com o restabelecimento do Fundo Amazônia, do PPCDAm e de planos para os demais biomas. O Ibama também recuperou instrumentos de fiscalização, incluindo o embargo remoto de áreas com supressão ilegal de vegetação, exploração florestal e uso irregular do fogo em Terras Indígenas e em outras áreas públicas da Amazônia Legal.
A atuação do Congresso, por outro lado, foi em sentido contrário. Entre 2023 e 2026, o Congresso aprovou mudanças que reduziram salvaguardas ambientais, várias delas com vetos presidenciais derrubados, como o Marco Temporal das Terras Indígenas e a nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental. Foram alterados instrumentos relacionados à proteção territorial e à regularização ambiental de imóveis rurais, e seguem em tramitação propostas para barrar embargos remotos por satélite, além de propostas para adiar a implementação de novos critérios socioambientais para a concessão de crédito rural. São decisões que atingem justamente os instrumentos que sustentaram a queda do desmatamento.
Portanto, a queda no desmatamento foi impulsionada predominantemente por mecanismos administrativos e infralegais do Poder Executivo. A redução do desmatamento a níveis históricos demonstra a alta eficácia do modelo de comando e controle em um contexto de priorização política, com órgãos e orçamento do Executivo dedicados a essa finalidade. Contudo, do ponto de vista político-normativo, o avanço é vulnerável e o Executivo perde margem jurídica para manter o ritmo de combate à medida que o Congresso aprova leis que fragilizam a gestão ambiental.
Os dados do PRODES demonstram que o Desmatamento Zero é uma meta tecnicamente viável e ao alcance do Brasil, mas sua permanência é extremamente frágil se depender apenas do Poder Executivo. Por isso, essa tendência de redução está longe de ser permanente, e um recorde positivo pode ser revertido, como ocorreu após 2012, com o enfraquecimento do Código Florestal. Uma conquista que depende da orientação de cada governo e que o Congresso pode desmontar não está garantida.
“Não podemos permitir que o menor desmatamento da história seja apenas um marco momentâneo. A redução ainda depende muito da atuação do governo federal em cada período e pode ser comprometida por decisões do Congresso Nacional. Nos últimos anos, testemunhamos uma estratégia coordenada por parte do Legislativo para enfraquecer, adiar e desmantelar leis e regulamentações que ajudam a proteger o meio ambiente, e agora estamos diante da configuração de um Congresso ainda mais antiambiental. A depender do presidente eleito, o potencial de retrocessos ambientais aumentará drasticamente”, alerta Mazzetti.
Um levantamento do Observatório do Clima (OC), com base na classificação do Farol Verde, mostra que mais da metade do Congresso Nacional apresenta baixa convergência ambiental (68,9%). Numericamente, isso representa 409 das 594 cadeiras. No Senado, 79% apresentam baixa convergência, o que corresponde a 64 dos 81 senadores. Ou seja, o saldo das últimas eleições não foi nada positivo para a pauta socioambiental. Tanto o Senado quanto a Câmara viram o crescimento expressivo da extrema-direita. Na prática, a bancada antiambiental poderá ter quantitativo o suficiente para se fazer valer de Propostas de Emenda à Constituição e para aprovar leis que desmontam políticas socioambientais que impactam diretamente no desmatamento.
O que cada governo fez, e o que aconteceu com a floresta
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| GOVERNO BOLSONARO (2019–2022) |
GOVERNO LULA (2023–2026) |
|
|---|---|---|
| Plano de combate ao desmatamento | PPCDAm descontinuado | PPCDAm e planos dos demais biomas recriados |
| Fundo Amazônia | Comitê orientador extinto | Reativado; R$ 2,7 bi desembolsados até 2026 |
| Multas e sanções | Núcleos de conciliação travaram as multas | Embargo coletivo e multa de R$ 10 mil/ha por incêndio |
| Fiscalização | Forças Armadas (GLO) no lugar do Ibama e do ICMBio | Ibama volta a fiscalizar, e a usar embargo remoto por satélite |
| Fogo | Resposta emergencial | Política nacional de manejo integrado do fogo |
| Atos infralegais mapeados | 34 negativos, 0 em clima | 177 positivos, 1 negativo |
| Desmatamento (PRODES) Acumulado |
45.612 km² | 24.648 km² |
O que falta para o Desmatamento Zero
Uma revisão histórica mostra a consolidação da ideia do Desmatamento Zero, que foi encampada como demanda popular pelo Greenpeace em 2012, até chegar ao Congresso como proposta de lei de iniciativa popular em 2015 com o apoio de 1,4 milhão de brasileiros de todas as regiões do país.
Refletiu-se no debate climático global com o Acordo de Paris, que, dentre seus objetivos, prevê zerar e reverter a destruição florestal até 2030. No setor privado, essa pauta traduziu-se em compromissos práticos como a Moratória da Soja no Brasil, vigente por duas décadas. Por fim, na esfera governamental, a atual gestão federal reforçou essa diretriz ao definir a meta oficial de atingir o desmatamento zero até 2030.
Para que o Brasil avance de forma consistente rumo ao Desmatamento Zero, é necessário consolidar medidas de longo prazo que não dependam apenas da capacidade de fiscalização e controle de cada governo. São necessárias políticas efetivas que garantam a proteção das florestas, o respeito aos direitos dos povos indígenas e das comunidades tradicionais, e a ação de diferentes setores. O Greenpeace Brasil defende, entre outras medidas:
- a destinação das florestas públicas não destinadas prioritariamente para conservação, uso sustentável e uso por comunidades e agricultores familiares;
- a eliminação do desmatamento das cadeias produtivas, sobretudo de grãos e gado, considerando que esses setores têm retrocedido em seus compromissos com o desmatamento zero;
- mais rigor nas regras para a destinação de recursos financeiros a empresas e produtores envolvidos com destruição ambiental;
- um planejamento de infraestrutura para a Amazônia que considere os impactos socioambientais, evite a abertura de novas frentes de desmatamento e degradação e não aumente a insegurança e os conflitos na região.
O Brasil chegou a um ponto importante, e os números mostram que podemos reduzir o desmatamento. A questão agora é se teremos a capacidade política de manter essa trajetória e alcançar o Desmatamento Zero.
Mas a Amazônia não está em chamas?
Nas últimas semanas, a fumaça que cobre Manaus e as queimadas na Amazônia voltaram ao centro do debate. Na região, o fogo raramente surge espontaneamente e é provocado pela ação humana, muitas vezes criminosa. Embora o fenômeno El Niño deixe o clima mais seco e amplie o alcance dos incêndios, resultando em grandes áreas queimadas, é necessário que a fumaça deixe de ser normalizada e de ser tratada como um fenômeno climático. O fogo tem responsáveis, e eles devem ser devidamente responsabilizados.
Ainda assim, os dados do Inpe mostram que as ações de prevenção e de combate têm surtido efeito. Entre janeiro e 15 de outubro, o acumulado de focos de calor no Bioma Amazônia no ano foi o segundo menor do período desde 2019.
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| ANO | JAN | FEV | MAR | ABR | MAI | JUN | JUL | AGO | SET | OUT | TOTAL |
| 2019 | 1.419 | 1.368 | 3.383 | 1.702 | 854 | 1.880 | 5.318 | 30.900 | 19.925 | 3.128 | 69.877 |
| 2020 | 1.200 | 1.196 | 1.641 | 789 | 829 | 2.248 | 6.803 | 29.307 | 32.017 | 10.834 | 86.864 |
| 2021 | 794 | 864 | 643 | 615 | 1.166 | 2.305 | 4.977 | 28.060 | 16.742 | 7.651 | 63.817 |
| 2022 | 1.226 | 584 | 490 | 384 | 2.287 | 2.562 | 5.373 | 33.116 | 41.282 | 8.210 | 95.514 |
| 2023 | 1.056 | 734 | 1.019 | 768 | 1.692 | 3.075 | 5.772 | 17.372 | 26.449 | 10.801 | 68.738 |
| 2024 | 2.049 | 3.157 | 2.654 | 1.117 | 1.670 | 2.842 | 11.434 | 38.266 | 41.463 | 8.180 | 112.832 |
| 2025 | 1.219 | 399 | 772 | 293 | 836 | 1.650 | 2.183 | 6.094 | 7.211 | 3.569 | 24.226 |
| 2026 | 2.056 | 873 | 873 | 403 | 867 | 1.366 | 1.374 | 9.206 | 12.562 | 9.544 | 39.124 |
A capacidade de resposta federal, que sofreu um desmonte severo entre 2019 e 2022, voltou a ser estruturada a partir de 2023, com medidas como a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo e a contratação do maior contingente de brigadistas federais. O impacto foi concreto e em 2025, a Amazônia registrou o menor número de focos de incêndio de toda a série histórica, iniciada em 1998.
O fogo é uma forma barata de degradação da floresta e geralmente é utilizado para desmatar ou renovar pastagens. Quanto maior a área desmatada, mais matéria orgânica seca há para queimar. Ou seja, se a Amazônia não tivesse registrado uma queda substancial no desmatamento, a situação poderia estar ainda mais crítica, sobretudo diante de um El Niño muito forte.
Proteger a floresta exige fiscalização constante e esforço de todas as esferas do governo, e a capacidade operacional para lidar com períodos de seca e com o fogo criminoso precisa ser continuamente ampliada.
Diante da crise enfrentada por diversos municípios do Amazonas, do Pará e de Rondônia, é fundamental que haja uma investigação rigorosa sobre a origem do fogo e os interesses envolvidos a fim de punir os responsáveis. Além disso, a prioridade dos governantes deve ser proteger a população – que vem sofrendo impactos na saúde e na rotina de trabalho e estudo -, combater os incêndios e impedir que a destruição da floresta seja utilizada para consolidar ocupações irregulares ou abrir novas áreas ilegalmente para atividades agropecuárias.
https://www.greenpeace.org/brasil/blog/menor-taxa-de-desmatamento-da-historia-da-amazonia/
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