
Sonhos já costumam ser experiências bastante estranhas, mas quando estamos doentes e com febre, eles podem se transformar em verdadeiras viagens surreais. Cenários impossíveis, objetos gigantescos, criaturas assustadoras e sensações intensas são alguns dos elementos que aparecem com frequência nesses episódios. Embora muita gente já tenha passado por essa experiência, a ciência ainda tenta entender exatamente o que acontece no cérebro durante os chamados sonhos febris.
Pesquisas indicam que esses sonhos tendem a ser mais vívidos, emocionalmente intensos e bizarros do que aqueles que temos normalmente. Uma das principais explicações está nos efeitos que o aumento da temperatura corporal pode provocar no funcionamento do cérebro, interferindo em processos relacionados à memória, à atenção e ao processamento de informações.

O pesquisador Michael Schredl, chefe do Laboratório do Sono do Instituto Central de Saúde Mental da Alemanha, na Universidade de Heidelberg, investigou o fenômeno em dois dos maiores levantamentos científicos já realizados sobre sonhos febris. Em um dos estudos, ele e seus colegas identificaram que esses sonhos eram, em média, 58% mais estranhos do que os relatos de pessoas que não estavam com febre.
As distorções espaciais estavam entre as características mais frequentes. Paredes que pareciam se movimentar, insetos enormes e criaturas com braços e pernas desproporcionais são alguns exemplos descritos pelos participantes. Para os pesquisadores, essas imagens podem estar relacionadas às alterações cognitivas provocadas pelas temperaturas elevadas, embora ainda não exista uma explicação definitiva para o fenômeno.
A relação entre febre e alterações no funcionamento cerebral não é uma novidade. Em 1892, o médico escocês Joseph Coats relatou uma experiência de febre tifoide que havia enfrentado décadas antes. Durante o episódio, ele passou por dias de delírio e teve visões tão realistas sobre a morte da própria irmã que continuou acreditando que ela havia falecido mesmo depois de despertar daquele estado. O relato ajuda a ilustrar como doenças acompanhadas de febre podem afetar a percepção da realidade, inclusive fora do sono.

Estudos também indicam que temperaturas corporais elevadas podem prejudicar determinadas funções cognitivas. Uma pesquisa citada na investigação sobre sonhos febris aponta que uma temperatura interna de 38,8 °C, em comparação com 37,2 °C, pode comprometer a memória. O calor extremo também pode afetar a comunicação entre diferentes regiões cerebrais, interferindo em atividades como atenção e processamento de informações.
Apesar dessas evidências, ainda não foi possível acompanhar diretamente a atividade cerebral de pessoas durante sonhos febris para identificar como essas alterações produzem imagens tão incomuns. Schredl considera que estudos com exames de imagem realizados durante o sono poderiam ajudar a esclarecer o processo, especialmente ao investigar a rede de modo padrão do cérebro, associada a atividades como divagação mental e pensamentos espontâneos.
Outro detalhe curioso é que o calor aparece com frequência no próprio conteúdo dos sonhos. Em um dos levantamentos conduzidos por Schredl, referências a altas temperaturas estavam presentes em 10% dos sonhos febris, contra apenas 2,22% dos sonhos registrados no grupo de comparação. Alguns participantes relataram cenários em que o ar parecia tão quente que respirar se tornava doloroso, enquanto bolas gigantes de lava surgiam e perseguiam os sonhadores.

Ainda não está claro, porém, se a sensação física de calor é incorporada diretamente ao sonho ou se o cérebro cria essa experiência como parte da narrativa onírica. Segundo Schredl, faltam estudos capazes de demonstrar se estímulos térmicos reais são incorporados aos sonhos da mesma maneira que sons e outros estímulos ambientais podem influenciar nossas experiências durante o sono.
A própria febre também continua sendo objeto de investigação científica. Embora o mecanismo não seja completamente compreendido, uma das principais hipóteses é que o aumento da temperatura corporal dificulte a sobrevivência e a multiplicação de microrganismos invasores. Existem ainda evidências de que algumas células e componentes do sistema imunológico funcionam melhor em temperaturas ligeiramente elevadas.
Essa resposta do organismo é bastante antiga. A reação febril a infecções teria surgido há cerca de 600 milhões de anos, indicando que o mecanismo foi preservado ao longo da evolução de diferentes formas de vida. Mesmo sendo uma resposta importante para a defesa do corpo, a febre pode provocar efeitos desconfortáveis, incluindo alterações no sono e experiências oníricas perturbadoras.
Mas por que esses sonhos parecem tão assustadores? Uma das explicações vem da chamada hipótese da continuidade, segundo a qual os sonhos refletem, ainda que de maneira distorcida, nossas experiências, emoções e preocupações durante a vida desperta. Se o estresse tende a produzir sonhos mais tensos, estar doente também pode influenciar o conteúdo emocional das experiências durante o sono.
Os dados de Schredl reforçam essa possibilidade. Quase 95% dos sonhos febris relatados pelos participantes de seu primeiro estudo foram acompanhados por emoções negativas. Entre os elementos descritos estavam ameaças envolvendo cães, pedras, insetos, terroristas e até grandes esferas. Além disso, esses sonhos costumavam apresentar menos personagens e interações do que os sonhos comuns, algo que pode estar relacionado à sensação de isolamento frequentemente experimentada durante uma doença.
Outro resultado chamou a atenção dos pesquisadores: aproximadamente 40% dos sonhos febris relatados eram lúcidos, ou seja, situações nas quais a pessoa percebe que está sonhando enquanto a experiência acontece. Ainda não há uma explicação clara para essa frequência, mas os resultados sugerem que a febre pode interferir nos processos cognitivos envolvidos no sono.
Apesar dos avanços, os sonhos febris continuam cercados de perguntas sem respostas definitivas. A ciência já encontrou indícios de que o aumento da temperatura corporal altera o funcionamento do cérebro e pode tornar os sonhos mais intensos, estranhos e negativos, mas ainda não sabe exatamente como essas mudanças se transformam em imagens tão vívidas.
A boa notícia é que, por mais reais e assustadoras que essas experiências possam parecer, o conteúdo dos sonhos não significa que aquilo esteja realmente acontecendo. Ainda assim, a febre merece atenção quando é intensa, persistente ou acompanhada de sintomas preocupantes. Entender melhor a relação entre temperatura corporal, atividade cerebral e sono pode ajudar os pesquisadores a desvendar por que, quando estamos doentes, nossa mente parece capaz de criar alguns dos cenários mais absurdos que podemos imaginar.
https://nerdizmo.ig.com.br/por-que-temos-sonhos-tao-estranhos-quando-estamos-com-febre-a-ciencia-explica/
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