
Centenas de milhares de trabalhadores, estudantes e moradores tomaram as ruas de diferentes cidades da Espanha, nas últimas semanas, contra os despejos, o aumento dos aluguéis e a especulação imobiliária. As mobilizações ganharam novo impulso após a morte de Maricarmen Abascal, de 87 anos, ocorrida em 7 de outubro, duas semanas depois de ela ter sido expulsa do apartamento onde viveu por 71 anos, em Madri. Segundo informações publicadas pelo periódico revolucionário espanhol Servir al Pueblo, em 9 de outubro, manifestações, acampamentos e ações contra despejos se multiplicaram pelo país, enquanto organizações sindicais preparam uma greve geral para 11 de novembro.
Em 8 de outubro, dezenas de milhares manifestantes percorreram o centro de Madri, saindo da Puerta del Sol em direção à antiga residência de Maricarmen, no bairro do Retiro. A marcha reuniu milhares de pessoas que responsabilizam a especulação imobiliária e a política habitacional espanhola pela situação da idosa. Os participantes entoaram palavras de ordem como “Não são mortes, são assassinatos” e “Maricarmen se foi, mas a luta continua”. Diante do prédio de onde ela havia sido despejada, os manifestantes fizeram minutos de silêncio, acenderam as lanternas de seus celulares e depositaram flores em sua homenagem.
DIRECTO | “No son muertes, son asesinatos”: miles de personas marchan de Sol a la casa de Maricarmen https://t.co/OYdgwmUbCP https://t.co/YnzRU3zD1c
— EL PAÍS (@el_pais) October 8, 2026
DIRECTO | La cabecera de la marcha en honor a Maricarmen se ha detenido al inicio de la calle Alcalde Sainz de Baranda, donde vivía, y ha guardado unos minutos de silencio. Cientos de linternas de teléfonos móviles se han encendido https://t.co/OYdgwmUbCP https://t.co/n0dulEt61l
— EL PAÍS (@el_pais) October 8, 2026
Maricarmen foi retirada de casa em 23 de setembro, após uma prolongada disputa com a empresa imobiliária Urbagestión, que havia adquirido o imóvel. Mesmo debilitada e com deficiência reconhecida, a idosa foi expulsa em uma maca, apesar da resistência de centenas de manifestantes que se concentraram para impedir o despejo. Levado ao Hospital Gregorio Marañón, em Madri, seu estado de saúde permaneceu delicado. Ela morreu em 7 de outubro, sem conseguir retornar à residência onde passou a maior parte da vida.
A expulsão já havia provocado uma onda de protestos em setembro. Após a morte, participantes do acampamento instalado na Puerta del Sol voltaram a marchar em direção ao Congresso dos Deputados, enquanto forças policiais cercavam o edifício. O Servir al Pueblo divulgou registros das manifestações.
Algunos de los acampados en la Puerta del Sol han emprendido una marcha hacia el Congreso de los Diputados tras conocer el fallecimiento de Maricarmen Abascal dos semanas después de ser desahuciada. Los manifestantes han guardado un minuto de silencio.
@IreneLassoL https://t.co/8VHbOhUPU3
— Telediarios de TVE (@telediario_tve) October 7, 2026
Se blinda el Congreso. https://t.co/0lvoFXHiFw
— César Muñoz (@ZesarM) October 7, 2026
Mais de 600 mil tomam as ruas de Madri e Barcelona
A jornada nacional de 3 de outubro contou com mais de 50 manifestações convocadas em cidades espanholas, entre elas Valência, Sevilha, Bilbao, Zaragoza, Málaga e Palma de Mallorca.
Naquela data, cerca de 500 mil pessoas, segundo o Sindicato de Inquilinas, participaram de uma das maiores manifestações da campanha, em Madri. Organizados em quatro grandes colunas, os manifestantes partiram de diferentes pontos da capital e convergiram para a praça de Cibeles, sob a palavra de ordem “Rumo à greve geral!”. A multidão exigiu a redução dos aluguéis, o fim dos despejos e medidas contra os grandes proprietários e fundos de investimento imobiliário.
Em Barcelona, a grande marcha inicialmente prevista para aquela data foi adiada para o dia 5 devido às fortes chuvas. A marcha, convocada por organizações de defesa dos inquilinos e luta por moradia, reuniu aproximadamente 120 mil pessoas, segundo os organizadores. Convocada por sindicatos de inquilinos e organizações de luta por moradia, a manifestação exigiu medidas de proteção habitacional e a convocação de uma greve geral.
Ao término da marcha, quando parte dos manifestantes permaneceu nas ruas, os Mossos d’Esquadra, polícia regional catalã, realizaram cargas para dispersá-los. Grupos de manifestantes resistiram, ergueram barricadas e entraram em confronto com as forças policiais nas imediações da praça Catalunya.
Segundo o balanço divulgado pela própria polícia, 13 pessoas foram detidas, incluindo uma menor de idade, e 30 agentes sofreram ferimentos leves. Foram contabilizadas 28 barricadas e 22 focos de incêndio. O Servir al Pueblo destacou a resistência dos manifestantes à repressão e reproduziu imagens das cargas policiais.
13 detenidos y 30 agentes heridos en Barcelona tras la manifestación por la huelga general ante la crisis de la vivienda https://t.co/muGqFlb4kP https://t.co/f1yGmSenuC
— EL MUNDO (@elmundoes) October 6, 2026
A agitação prosseguiu nos dias seguintes. Na sexta-feira, 9 de outubro, uma nova manifestação reuniu cerca de 15 mil pessoas, segundo os organizadores. Convocada por sindicatos de inquilinos e organizações populares, a marcha homenageou Maricarmen e Olga, uma mulher que morreu por suicídio após perder sua moradia em L’Hospitalet de Llobregat. Sob a palavra de ordem “Por Olga e Maricarmen: o negócio da moradia mata!”, os manifestantes voltaram a exigir o fim dos despejos e a preparação da greve geral.
O acampamento na praça Catalunya continuava ativo em 8 de outubro, com dezenas de barracas instaladas no centro de Barcelona. Também foram realizados atos em Valência, Sevilha e outras cidades.
DEL HOMENAJE A MARICARMEN A LOS CÁNTICOS REVOLUCIONARIOS.
En Sevilla, participantes en la concentración entonan «Gallo rojo, gallo negro», una canción emblemática de la izquierda antifranquista.
El homenaje adquiere también un marcado carácter político. https://t.co/UEynd7RG14— Onda Capital (@ondacapitalfm) October 9, 2026
Em Valência, milhares de pessoas pessoas participaram de uma manifestação em 3 de outubro. A marcha dirigiu-se ao Palau de les Arts, onde acontecia o congresso de investimentos imobiliários Valencia Real Estate Summit 2026. Manifestantes romperam o cordão policial e tentaram acessar o local. A polícia realizou cargas e utilizou gás lacrimogêneo e balas de borracha. Cinco pessoas foram detidas e nove policiais ficaram feridos, conforme o balanço oficial.
De acordo com uma reportagem do Servir al Pueblo, parte dos manifestantes prosseguiu com os protestos após os enfrentamentos, e uma assembleia realizada no centro da cidade decidiu estabelecer um acampamento por tempo indeterminado.
Hui hem patit la violència policial a la manifestació. No oblidem que és la mateixa violència que ens fa fora de les nostres cases cada dia. La d’un Estat que és incapaç de posar fi a aquesta crisi. Ens tindran en front, organitzades! Atentes a pròximes convocatòries! https://t.co/J7DZM2xkS6
— Sindicat d’Habitatge de València (@SdHValencia) October 3, 2026
Acampamentos persistem após rejeição de decretos e convocação de eleições
A Puerta del Sol, uma das principais praças de Madri, permanece ocupada por manifestantes que exigem medidas contra os despejos e a especulação imobiliária. Iniciado após a expulsão de Maricarmen, o acampamento chegou a reunir aproximadamente 2 mil participantes e 1.240 barracas em 1º de outubro, segundo levantamento do Servir al Pueblo. A mobilização também se estendeu à praça Catalunya, em Barcelona, e a outras cidades espanholas.
A pressão das ruas levou o governo de coalizão entre o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e o Sumar, presidido por Pedro Sánchez, a aprovar, em 29 de setembro, dois decretos emergenciais relativos à moradia. Entre as medidas estavam a prorrogação de contratos de aluguel, restrições aos despejos de famílias vulneráveis e mecanismos de contenção de preços. Os decretos, contudo, foram rejeitados pelo Congresso dos Deputados em 2 de outubro, com votos contrários do Partido Popular (PP), Vox, Junts e outras forças parlamentares de direita.
O Servir al Pueblo condenou as medidas por considerá-las insuficientes diante das reivindicações do movimento popular. O Sindicato de Inquilinas exigia, entre outras medidas, contratos de aluguel por tempo indeterminado, enquanto os decretos apresentados pelo governo previam mecanismos de prorrogação e renovação contratual que, segundo o periódico, não eliminariam a insegurança habitacional.
Em 5 de outubro, diante da derrota parlamentar, Sánchez anunciou a dissolução das Cortes e a convocação de eleições gerais antecipadas para 29 de novembro. O anúncio, entretanto, não encerrou os protestos. A organização do acampamento da Puerta del Sol decidiu manter a ocupação por tempo indeterminado, enquanto sindicatos de inquilinos, organizações de trabalhadores e centrais sindicais passaram a preparar uma greve geral para 11 de novembro.
Em declaração publicada em 5 de outubro, os Comitês Revolucionários também relacionaram a crise da moradia ao desgaste do governo de Pedro Sánchez. Segundo a organização, os aluguéis consomem entre 50% e 80% do salário mensal dos trabalhadores, dependendo da cidade, enquanto ocorrem quase 50 despejos diariamente no país. O grupo denunciou que tanto a continuidade do governo PSOE-Sumar quanto uma eventual vitória do PP e do Vox manteriam os problemas fundamentais dos trabalhadores. Diante das eleições antecipadas de 29 de novembro, convocou o boicote eleitoral sob a palavra de ordem “Não vote, lute!”.
A continuidade da mobilização ocorre num contexto de encarecimento dos aluguéis. Segundo o levantamento de setembro de 2026 do portal imobiliário Idealista, o valor médio anunciado para locação de imóveis na Espanha atingiu 15,1 euros por metro quadrado, uma elevação de 5,6% em relação ao mesmo mês do ano anterior. Na Comunidade de Madri, o valor chegou a 21,6 euros por metro quadrado.
Para o Servir al Pueblo, as mobilizações demonstram o aprofundamento das contradições entre os interesses dos trabalhadores e os grandes proprietários imobiliários, fundos de investimento e monopólios financeiros. O periódico critica tanto a política habitacional do governo social-democrata quanto a oposição parlamentar de direita, e sustenta que a greve geral foi colocada na ordem do dia pela pressão da mobilização popular.
A morte de Maricarmen, cuja última mensagem aos manifestantes foi um apelo para que continuassem lutando por seus direitos, tornou-se um símbolo da rebelião popular contra os despejos. Enquanto os acampamentos prosseguem e novas manifestações são convocadas, os sindicatos de moradia buscam ampliar a mobilização para a greve geral de novembro.

ACERCA DEL CORRESPONSAL
REDACCIóN CENTRAL
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Algunos de los acampados en la Puerta del Sol han emprendido una marcha hacia el Congreso de los Diputados tras conocer el fallecimiento de Maricarmen Abascal dos semanas después de ser desahuciada. Los manifestantes han guardado un minuto de silencio.
@IreneLassoL https://t.co/8VHbOhUPU3
En Sevilla, participantes en la concentración entonan «Gallo rojo, gallo negro», una canción emblemática de la izquierda antifranquista.
Hui hem patit la violència policial a la manifestació. No oblidem que és la mateixa violència que ens fa fora de les nostres cases cada dia. La d’un Estat que és incapaç de posar fi a aquesta crisi. Ens tindran en front, organitzades! Atentes a pròximes convocatòries! https://t.co/J7DZM2xkS6
