
O candidato da extrema direita à presidência, Flávio “Vorcaro” Bolsonaro (PL), declarou durante um ato político em Goiânia (GO), em 6 de outubro, ao lado do latifundiário Ronaldo Caiado, que pretende utilizar a nova maioria reacionária no Congresso de corruptos para alterar a Constituição Federal, sob o pretexto de “democratizar” o país (sic). O ultrarreacionário prometeu classificar organizações como o Comando Vermelho (CV), o Primeiro Comando da Capital (PCC) e os grupos paramilitares, que ele chama incorretamente de “milícias”, como “terroristas”, impondo penas de até 80 anos de cárcere. No mesmo discurso, apresentou-se como barreira para o país não “virar uma Venezuela” e não se entregar aos “braços” de grupos “terroristas” como Hamas e Hezbollah, movimentos que resistem às agressões da entidade sionista e do imperialismo ianque no Oriente Médio Ampliado (OMA) e são apoiados pelo movimento anti-imperialista e de solidariedade no Brasil. Sua campanha já deixou claro quem mais pretende enquadrar como “terrorista”: a Liga dos Camponeses Pobres (LCP), alvo de ameaças de Flávio e de seus asseclas.
A declaração ocorreu diante do séquito bolsonarista, com a presença dos governadores Daniel Vilela, de Goiás, e Tarcísio de Freitas, de São Paulo, eleitos no primeiro turno. Flávio disse que, com a nova configuração parlamentar, que possui maioria de correligionários e aliados, seu governo reacionário poderia eleger presidentes das duas Casas alinhados aos seus interesses e, a partir disso, promover alterações na Constituição. “Mudar a Constituição” e “democratizar esse país”, declarou o obtuso, associando a suposta “democratização” ao controle das duas Casas pela extrema direita em aliança com a direita latifundiária. Flávio também indicou Caiado, ex-dirigente da organização paramilitar União Democrática Ruralista (UDR), para eventual ministério. Tarcísio declarou apoio, enquanto Romeu Zema havia aderido no dia anterior.

Flávio também voltou a defender a redução da maioridade penal e a castração química para agressores sexuais. (Isso, obviamente, é uma promessa vazia: fosse adiante, o pânico geral seria na própria extrema direita, onde abunda a concepção segundo a qual a mulher é objeto violável.) Disse ainda que pretende “construir meio milhão de vagas de presídios e aumentar penas para chefes criminosos” e afirmou: “A gente vai arregaçar com vagabundo”. A “democratização” prometida pelo candidato, portanto, vem acompanhada de mais encarceramento em massa e penas mais longas, medidas cujas ineficácia e mesmo contraproducência são historicamente comprovadas.
Caiado, derrotado no primeiro turno com 2,18% dos votos válidos, justificou o apoio a “Rachadinha” como continuidade de sua “trajetória de oposição ao PT”. Afirmou que “o Estado brasileiro não se curva ao crime e à bandalheira”, mas também reafirmou a defesa de anistia para Jair Bolsonaro e os “galinhas-verdes” condenados pelos atos da bolsonarada do 8 de janeiro. Tarcísio chamou o golpista Jair Bolsonaro de “injustiçado”. A severidade prometida pelo palanque tem uma exceção bem definida: o próprio clã e seus aliados.
O apoio veio depois de uma campanha em que Caiado havia atacado o próprio candidato que agora apoia. Na reta final do primeiro turno, peças de sua campanha reproduziram declarações de Flávio sobre o magnata Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, e afirmaram: “Um mentiroso se acostuma a mentir, mente para todos”. Ao justificar a mudança, Caiado declarou cinicamente: “Eu sou duro com todos. Não entro na campanha mole”.

Anticomunismo e alinhamento com a entidade sionista
Ao apresentar Hamas e Hezbollah, organizações da resistência anti-imperialista e antissionista, como “grupos terroristas” dos quais o Brasil precisaria ser protegido, às vésperas do glorioso Dilúvio de Al-Aqsa, Flávio incorpora à sua retórica nada sapiente a associação entre o Eixo da Resistência no OMA e uma suposta “ameaça interna”.
No Brasil, a solidariedade à Palestina e à luta anti-imperialista mobiliza dezenas de frentes, comitês e organizações populares, com manifestações públicas de apoio ao Hamas e ao Hezbollah. Em 27 de maio de 2025, por exemplo, um ato organizado por AND e pelo Instituto Brasil–Palestina (Ibraspal), no Rio de Janeiro, reuniu mais de 400 pessoas e mais de 38 movimentos, entidades e organizações. Na ocasião, o advogado e ativista Tiago Guilherme afirmou: “Não é crime defender os movimentos de resistência, seja o Hezbollah no Líbano, seja o Hamas em Gaza”.
A formulação de Flávio em Goiânia soma-se à política externa que sua candidatura ultrarreacionária já vinha anunciando. “Rachadinha” prometeu transferir a embaixada brasileira para Al-Quds ocupada, denominada Jerusalém, em 2027 e ampliar a aproximação com a entidade sionista “Israel”. Em julho, o genocida Benjamin Netanyahu gravou uma mensagem exibida na convenção do PL na qual chamou Flávio de o “grande campeão” do Brasil e da “amizade” entre o País e a entidade sionista. No segundo turno, “Satãnyahu” voltou a manifestar apoio público ao candidato de extrema direita, desejando-lhe uma “grande vitória”.
Em conversa divulgada em 7 de outubro, Flávio afirmou ao presidente colombiano, Abelardo de la Espriella, que pretende integrar o Brasil ao “Escudo das Américas”, iniciativa do país Estados Unidos (EUA), dirigida por Donald Trump sob a bandeira do combate ao “narcoterrorismo”. A promessa de ampliar a repressão no Brasil se afina, assim, à intervenção do imperialismo ianque no subcontinente e à sua política contrarrevolucionária preventiva. Os alvos dessa política foram explicitados em 16 de julho, quando o secretário de Estado ianque, Marco Rubio, reuniu representantes de 66 governos para tratar do chamado “ressurgimento do terrorismo político de extrema esquerda”. Na ocasião, colocou nominalmente comunistas e anti-imperialistas sob a mira da nova articulação internacional de “contraterrorismo” e repressão.

Ameaças à LCP e repressão aos anti-imperialistas
Em Rondônia, a criminalização reacionária avança ferozmente contra os heroicos camponeses que lutam por terra. Em vídeo divulgado pela campanha de Flávio na TV Celular, o então candidato ao Senado Fernando Máximo atacou covardemente a Liga dos Camponeses Pobres (LCP), exigindo que a organização seja classificada como terrorista. Na gravação, o aliado de Flávio Bolsonaro bradou: “Tem que ter rigor, tem que tratar como terroristas, sim!”, ao que Flávio respondeu que “Isso aí tem dia e hora pra acabar, pode ter certeza!”.
Na mesma gravação, Flávio questionou de forma caluniosa a procedência dos recursos dos camponeses, insinuando a existência de financiamentos ocultos, sem apresentar provas. “Uai, se é pobre, como é que compra fuzil?” Depois, insinuou: “Tem alguém financiando, né?”, latiu Flávio. Máximo também defendeu os latifundiários e atacou a parca ampliação de terras indígenas e reservas ambientais: o “antiterrorismo” do palanque serve à defesa da grande propriedade (saqueada dos povos do campo) contra a luta pela terra.

Fernando Máximo e Bruno Scheid, que chamou a LCP de “facção criminosa” que “porta fuzil em Rondônia”, ambos do PL, foram eleitos para o Senado, enquanto Marcos Rogério venceu o governo estadual. A eleição dos aliados que atacam a LCP amplia a força institucional dessa campanha.
A acusação contra a LCP não surgiu agora. Jair Bolsonaro já havia promovido campanha semelhante quando administrava o velho Estado. Em 1º de maio de 2021, na abertura da ExpoZebu, exibiu imagem de uma pichação com “Viva a Revolução Agrária!” e afirmou ter articulado com o governador, coronel Marcos Rocha, e o ministro da Justiça uma estratégia para “conter esse terrorismo no estado de Rondônia”. A repressão de seu governo mobilizou também a Força Nacional junto às tropas estaduais contra as áreas camponesas.
A criminalização do movimento anti-imperialista já ocorre durante o atual governo federal de Luiz Inácio. No dia 28 de janeiro, a Polícia Militar de Pernambuco (PM-PE) atacou brutalmente um ato anti-imperialista na cidade do Recife. Os agentes do velho Estado dispararam covardemente munição letal e balas de borracha contra os manifestantes, ferindo um jornalista de AND e a mãe de um estudante secundarista. Após a violenta dispersão das massas nas avenidas recifenses, o aparato policial encarcerou dois bravos estudantes a cerca de dois quilômetros do local, incriminando-os por um suposto lançamento de coquetel molotov contra um quiosque do McDonald’s.
Em carta aberta aos Comitês de Solidariedade à Palestina de todo o Brasil, publicada em 27 de junho, o Coletivo Mangue Vermelho e o Movimento Ventania defenderam “uma aliança ampla em defesa da Heroica Resistência Nacional Palestina” e denunciaram a criminalização dos ativistas, caluniados como “terroristas”. Segundo os coletivos, as filmagens demonstravam que nenhum dos dois estudantes detidos estivera envolvido no lançamento do coquetel molotov. A carta também denunciou a expulsão das duas organizações e da LCP do Comitê de “Solidariedade” à Palestina – PE.
Em agosto, o Comitê de Solidariedade ao Povo Palestino – Goiás lançou um abaixo-assinado em apoio aos movimentos perseguidos, reunindo entidades estudantis, comitês de apoio à luta pela terra, organizações pró-Palestina e personalidades democráticas. A iniciativa vinculou a defesa da solidariedade internacional ao combate à criminalização de estudantes e camponeses no Brasil.
A perseguição que já avança durante o governo à direita sob bandeiras vermelhas de Luiz Inácio encontra, assim, na candidatura de Flávio e na nova maioria reacionária no Congresso uma ameaça de ampliação e de maior articulação com os planos ianques no subcontinente.

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