
Os partidos que compõem o centrão (União Brasil, PP e Republicanos) saíram menores das urnas em 2026 diante do avanço do PL na Câmara dos Deputados, mas ainda serão decisivos para o futuro governo aprovar reformas mais ambiciosas ou mesmo projetos de lei mais simples.
O grupo tinha 140 deputados antes das eleições e passará para 128 na próxima legislatura. Outras siglas de centro que costumam dar apoio legislativo a governos de distintas ideologias, como PSD e MDB, também perderão cadeiras a partir de 2027.
Esses partidos priorizam a eleição para deputado federal porque é ela que define quanto cada sigla receberá do fundo partidário e do fundo eleitoral, além de vitaminar os partidos com tempo de propaganda eleitoral na televisão e rádio.
No Senado, a bancada do centrão ficou do mesmo tamanho, com 17 senadores, mas o perfil mudou, tendendo mais para o bolsonarismo. Nesta terça (6), União Brasil e PP devem declarar apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência no segundo turno. O Republicanos ainda não decidiu se adere à campanha ou se permanece neutro, com parte de seus filiados votando em Lula (PT).
A federação entre União Brasil e PP, que hoje contabiliza 98 deputados federais, caiu para 87. O Republicanos do presidente da Câmara, Hugo Motta (PB), foi de 42 para 41.
Parlamentares ouvidos pela reportagem afirmam que a direita se mostrou um rival importante nesta eleição, tomando cadeiras com o voto de opinião em municípios que antes eram dominados por políticos do centrão com base em emendas parlamentares, nas máquinas das prefeituras e entrega de programas sociais. A campanha foi focada nas redes sociais, o que dificultou antecipar esse cenário.
Apesar da diminuição, esse grupo de partidos continuará ditando os rumos do país e será o fiel da balança nas votações. Sem eles, PT ou PL não serão capazes de formar maioria para aprovar projetos de lei. O partido de Flávio terá 121 cadeiras na Câmara, que se somam às 10 do Novo na direita. As siglas de esquerda, como PT, PCdoB, PSOL e PSB, ficarão com 124 votos.
A adesão completa dos demais partidos ao novo governo garantiria com folga votos para alterar a Constituição. Em um governo Flávio Bolsonaro, seriam 389 deputados. Se Lula for o vencedor, seriam 382. Para aprovar uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) são necessários 308 votos favoráveis.
Uma ressalva importante é que parte dos deputados eleitos do centrão tem um alinhamento maior com a direita (principalmente os eleitos pelas regiões Sul, Sudeste e Centro–Oeste) ou a esquerda (os vitoriosos no Nordeste e Norte). Isso significa que uma fidelidade completa é um cenário improvável, principalmente se o vencedor for Lula.
Parte ou até mesmo todo o terreno perdido pode crescer com a adesão de deputados de partidos que não atingiram a cláusula de desempenho (regra que exige uma votação mínima pelo país para que a legenda continue a ter direito a propaganda eleitoral na TV e rádio e aos recursos do fundo partidário).
Ao todo, 34 deputados federais foram eleitos por essas legendas e, agora, poderão ir para outros partidos sem risco de perderem o mandato. PSOL/Rede, PRD/Solidariedade, PDT, Avante e o recém-criado Missão, de Renan Santos, não atingiram o mínimo exigido pela regra.
O PSD, partido de centro com tendência governista, também perdeu deputados. São 43 eleitos nas eleições deste ano contra 48 antes do pleito. A sigla defende que cresceu em relação à eleição de 2022, quando elegeu 2022, e que também obteve um maior número de governos estaduais desta vez.
O MDB, também de centro, perdeu dois parlamentares no total, com a bancada passando de 38 para 36 deputados. O grupo mais forte representa o Nordeste, com peso de quase 40% dos eleitos. É um grupo mais lulista, mas que também votou a favor das pautas do governo Jair Bolsonaro (PL).
No Senado, o PP perdeu dois senadores, passando de oito para seis. Entre os novos parlamentares está Guilherme Derrite, ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo e identificado com o bolsonarismo.
No União Brasil, a bancada passou de três para cinco senadores, enquanto no Republicanos ela permaneceu estável, com seis senadores (e os eleitos reforçaram a tendência bolsonarista do partido no Senado, que destoa do grupo da Câmara, com maior adesão ao governo Lula).
O PSD teve a maior queda, com a bancada passando de 14 senadores para 5. Dos restantes, dois foram eleitos agora. Um é Lucas Barreto (AP), mais alinhado à direita, e o outro é Júlio César (PI), eleito com o nome de urna de Julim de Lula. A identificação com o presidente petista é recente — ele apoiava o governo Bolsonaro, mas prometeu na campanha seguir alinhado com as pautas da esquerda.
O MDB perdeu um senador, com a bancada saindo de nove para oito. Renan Calheiros (AL) não voltará ao Senado em 2027. Ele era um dos principais nomes de apoio ao presidente Lula nos partidos de centro. Entre os reeleitos, no entanto, está um grupo próximo ao presidente, como Eduardo Braga (AM), Veneziano Vital do Rêgo (PB), Marcelo Castro (PI) e Helder Barbalho (PA).
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – LUCAS MARCHESINI E RAPHAEL DI CUNTO
https://eshoje.com.br/politica/2026/10/centrao-perde-espaco/
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