O resultado reforça a tendência brasileira de não encerrar a corrida ao Planalto na primeira rodada. Restam três semanas para a nova votação.

Por Redação, com CartaCapital – de Brasília
A disputa pela Presidência da República se decidirá em segundo turno entre Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT), em 25 de outubro. Com 97% das urnas apuradas neste domingo, o senador obteve 47,43% dos votos válidos, contra 44,69% do presidente. O último pleito presidencial a terminar no primeiro turno foi o de 1998, quando Fernando Henrique Cardoso (PSDB) conquistou a reeleição com 53% dos votos válidos.

O resultado deste domingo encerra uma etapa marcada pela captura do debate eleitoral por uma crise de grandes proporções no Supremo Tribunal Federal — o que se transformou em obstáculo para a estratégia da campanha lulista de destacar os escândalos da trajetória de Flávio.
Há quatro anos, Lula avançou ao segundo turno na liderança. Na ocasião, obteve 48,43% dos votos válidos na primeira rodada, contra 43,20% do então presidente Jair Bolsonaro (PL). Foi uma surpresa para muitos, uma vez que a maioria das pesquisas de intenção de voto ao longo daquela eleição projetava um resultado mais dilatado em favor do candidato do PT.
Em 2026, a média dos levantamentos já sinalizava uma corrida acirrada no primeiro turno. O agregador de pesquisas Carta/Colectta mostrava Lula com 41,1% no sábado 3, enquanto Flávio registrava 37,9%. O desfecho da eleição presidencial colide com as otimistas projeções de aliados do presidente no fim de 2025, quando Jair Bolsonaro, preso na Superintendência da Polícia Federal em Brasília, “ungiu” seu filho zero um como candidato do PL ao Palácio do Planalto.
Para o ex-presidente do PT José Genoino, o campo progressista subestimou mais uma vez a competitividade do representante bolsonarista, a exemplo do que ocorreu em 2018 e em 2022. “Eles têm base social diante do desespero da população, têm o apoio de segmentos da classe dominante e da burguesia brasileira e internacional”, afirmou, em entrevista a CartaCapital na última sexta-feira 2. “Devíamos ter planejado uma campanha mais ofensiva, mais estruturante e mais polarizada desde o início.”
Colunista de CartaCapital, o cientista político Jorge Chaloub escreveu que uma eventual vitória de Flávio sobre Lula seria um sinal da força do projeto de Donald Trump, do qual o domínio das Américas é parte fundamental. “O Brasil tem um peso central para o imaginário geopolítico da ultradireita no poder nos Estados Unidos”, avalia Chaloub. “Por outro lado, a vitória de Lula não apenas indicaria a dificuldade de Trump de impor sua força mesmo em tradicionais zonas de influência, como fortaleceria uma das principais vozes com importância internacional a denunciar e resistir ao arbítrio imperialista do presidente norte-americano. Poucas vezes a política brasileira foi tão central na ordem internacional.”
Campanhas
As campanhas terão exatamente três semanas para ajustar seus discursos e mergulhar na busca pelos votos dos candidatos derrotados — e dos brasileiros que votaram em branco, anularam o voto ou sequer foram às urnas. A falta de postulantes competitivos de centro-esquerda no primeiro turno apresenta logo de cara um desafio extra para Lula, afirmou em entrevista a CartaCapital o sociólogo Marcos Coimbra.
– O filho do Bolsonaro já está no mapa de eleitores conservadores – disse Coimbra. Não se trata, porém, de uma transferência automática de votos, pondera o diretor do instituto Vox Populi. “Para o eleitor de sensibilidade político-ideológica muito baixa não tem nenhum problema ter votado em Caiado por ser o governador de seu estado. Então, não votou porque o Caiado é conservador, votou por um tipo bem diferente de razão.“
Inicia-se, assim, a luta de Lula por conquistar brasileiros que podem até estar à sua direita, mas que decidiram não votar em Flávio Bolsonaro no primeiro turno. A contagem regressiva já começou.
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