Do ouro na Amazônia ao níquel na Indonésia, a corrida global por minerais pressiona florestas e oceanos; povos indígenas se unem para defender seus territórios.

Em todo o mundo, a demanda por minérios têm pressionado ecossistemas e Terras Indígenas, com impactos socioambientais imensuráveis. A alta do preço do ouro contribui para a expansão do garimpo na Floresta Amazônica, já a corrida por minerais críticos, apresentados como essenciais para a transição energética, tem reproduzido injustiças e violências históricas associadas à exploração de recursos naturais.
Na Amazônia brasileira, bilhões de dólares em ouro são extraídos de garimpos ilegais, provocando desmatamento, contaminação por mercúrio e invasões de Terras Indígenas. Em 2026, investigação do Greenpeace Brasil mostrou como o ouro extraído ilegalmente é “lavado” e inserido nas cadeias nacionais e globais. Entre 2018 e março de 2026, irregularidades permitiram a comercialização de 25,3 toneladas de ouro, avaliadas em R$ 18,4 bilhões.
Na Indonésia, líder mundial na indústria de níquel, novas ameaças de exploração ameaçam o arquipélago de Raja Ampat, na Papua Ocidental, composto por mais de 1.500 pequenas ilhas. A região possui florestas tropicais altamente preservadas e é o coração da maior biodiversidade marinha do planeta. Há gerações, comunidades indígenas protegem os ecossistemas locais através de práticas tradicionais como o sasi, sistema que regula o uso dos recursos naturais para favorecer sua regeneração.
Territórios tradicionais ameaçados pela mineração têm em comum a luta de povos indígenas e comunidades locais, que representam 6% da população mundial, mas seus territórios sobrepõem 37% das áreas naturais remanescentes. Ou seja, proteger terras e direitos indígenas é proteger a biodiversidade e os limites ecológicos – condições fundamentais para conter a crise climática.
Encontro global de lideranças indígenas contra mineração predatória
Em agosto de 2026, mais de cem lideranças indígenas da Ásia, África e Amazônia se reuniram no arquipélago indonésio de Raja Ampat para participar do encontro Heyul Pelei Koranu Fyak (“A Grande Assembleia das Comunidades Indígenas”). Apoiada pelo Greenpeace Indonésia e pelo Institut USBA, a reunião buscou fortalecer a solidariedade entre povos indígenas na defesa de seus territórios diante do avanço da mineração e de outras ameaças.
“Vendo a floresta aqui, eu me senti como se fosse a minha floresta bem preservada. Estamos aqui buscando a solução”, relatou Pahn Ô Kayapó, liderança indígena da Amazônia, que enfrenta invasões de garimpo ilegal em seu território. “Estamos abertos para quem quiser nos apoiar, pessoas que lutam pela causa indígena, pelo meio ambiente. Eu fico feliz de ver outras mulheres na luta. Espero que vocês continuem e não deixem de lutar pela preservação e pelo povo de vocês.”
Após três dias de trocas de histórias, conhecimentos e experiências, os participantes elaboraram a Declaração de Arborek, demandando aos governos que reconheçam os conhecimentos e modos de vida indígenas como fundamentais para enfrentar as crises climáticas e da biodiversidade. O documento será entregue por representantes indígenas na COP17 da Biodiversidade, que acontece de 19 a 30 de outubro de 2026, na Armênia.
“Eu pediria o apoio de vários países para acabar com o garimpo. A floresta não existe só para a gente, é para o mundo inteiro”, destacou Doto Tatak-ire, presidente do Instituto Kabu, organização do povo Kayapó que atua na defesa das comunidades das Terras Indígenas Menkrãgnoti e Baú, entre o Pará e Mato Grosso, onde o desmatamento permaneceu abaixo de 1% entre 2010 e 2024. “A gente tem bases de vigilância para diminuir as invasões, mas a cada dia que passa as ameaças de garimpeiros, madeireiros e grileiros aumentam.”

Raja Ampat: biodiversidade ameaçada pela mineração do níquel
Conhecido como “último paraíso na Terra”, Raja Ampat é preservado pelas populações locais que têm uma relação umbilical com as florestas, mangues e recifes do arquipélago. Recentemente, Raja Ampat foi reconhecido pela Unesco como Reserva da Biosfera, por alinhar conservação ambiental e desenvolvimento humano sustentável.
As paisagens paradisíacas sustentam a vida em Raja Ampat, mas uma investigação do Greenpeace Indonesia denunciou ameaças da industria níquel, dando início à mobilização #SaveRajaAmpat. Em resposta, o governo indonésio anunciou o cancelamento de quatro das cinco licenças de níquel em agosto de 2025. Contudo, um ano depois, três empresas continuam buscando licenças de mineração.
Além de abrigar 75% das espécies de corais, Raja Ampat possui florestas ancestrais, com animais endêmicos e extensos manguezais conectados aos mares que cercam as centenas de ilhas. A expansão da mineração ameaça toda essa biodiversidade e comunidades locais.
Quais são os riscos da mineração em Terras Indígenas?
A mineração pode causar:
- desmatamento e fragmentação de florestas;
- contaminação de rios, peixes e pessoas, inclusive por mercúrio no caso do garimpo de ouro;
- destruição de habitats;
- pressão sobre vidas, cultura, alimentação e economias locais;
- conflitos, invasões e ameaças a povos indígenas e comunidades tradicionais.
Atividades econômicas que impactam povos indígenas e comunidades locais devem respeitar direitos, como o Consentimento Livre, Prévio e Informado (CLPI), que assegura a decisão diante de projetos que possam afetá-los. A Declaração da ONU também reconhece aos indígenas direitos à autodeterminação, às terras e aos recursos tradicionalmente ocupados.
A transição energética não pode justificar a corrida global e predatória por minerais críticos. Mineração sem proteções socioambientais e participação social está associada a danos socioambientais e à violação de direitos.
Mineração de níquel em Raja Ampat e garimpo de ouro na Amazônia.
5 medidas para reduzir os impactos da mineração
Para enfrentar os impactos da mineração que ameaça populações, meio ambiente e o clima em todo o mundo, o Greenpeace defende:
1. Criar zonas livres de mineração predatória e promover restauração ecológica: Proteger áreas de alta importância socioambiental e restaurar regiões degradadas pela mineração, como Amazônia e Raja Ampat.
2. Garantir os direitos indígenas e o CLPI: Projetos que afetem povos indígenas devem reconhecer seus direitos e respeitar sua decisão.
3. Assegurar financiamento climático direto: Direcionar recursos destinados ao clima, à conservação e a perdas e danos diretamente a povos indígenas e comunidades locais, principalmente mulheres e jovens.
4. Reduzir a demanda por novos minerais: Relatório encomendado pelo Greenpeace aponta uma série de soluções para mineração como eficiência energética, transporte público, reciclagem, reutilização e tecnologias que reduzam a demanda por minerais críticos.
5. Fortalecer compromissos na COP17 da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB): Um dos temas principais é a discussão da meta 30×30 – conservar pelo menos 30% da biodiversidade até 2030.
Faça parte da solução e assine a petição: Amazônia Livre do Garimpo
https://www.greenpeace.org/brasil/blog/mineracao-em-terras-indigenas-entenda-os-riscos-e-as-solucoes-ao-redor-do-mundo/
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