

Poucos lugares concentram de forma tão nítida os desafios atuais de segurança na Amazônia quanto a tríplice fronteira entre Colômbia, Equador e Peru. O cenário geopolítico é particular: trata-se de governos de direita alinhados com tendências de militarização, extrativismo e linha dura, e com maior proximidade com os Estados Unidos no que diz respeito à chamada “guerra contra o narcoterrorismo”.
Estamos diante de um cenário em que as atividades extrativas e as economias ilícitas presentes na região (envolvendo ouro, minerais críticos, cocaína, petróleo; todas altamente lucrativas nos mercados globais) convergem com atores armados altamente adaptáveis e com Estados fracos, ausentes, corruptos ou violentos contra suas próprias populações. A combinação é perigosa.
Abelardo de la Espriella, que assume a presidência da Colômbia neste 7 de agosto, fala em conceder “90 dias” para que os grupos armados se rendam e em encerrar qualquer processo de paz no país. Keiko Fujimori, presidente do Peru, promete construir megapresídios e retirar o país da Corte Interamericana de Direitos Humanos para “restabelecer a ordem”. Já Daniel Noboa, do Equador, declarou uma “guerra total”. Os três — que conhecem pouco a Amazônia — contam com o respaldo de Washington, que passou a enquadrar o problema como uma luta contra “organizações terroristas estrangeiras” e lançou o Escudo das Américas para “recuperar o controle de seu hemisfério” e de seus recursos naturais, segundo sua própria estratégia de segurança nacional.
A militarização e a criminalização não são respostas eficazes para um problema estrutural: os Estados, de fato, devem fazer cumprir a lei e levar a sério a segurança transfronteiriça, mas a questão é como fazê-lo. O recente relatório da Amazon Underworld e da Amazon Watch sobre essa tríplice fronteira, publicado em julho, alerta justamente para os riscos de retornar a fórmulas antigas que já fracassaram e propõe uma estratégia diferente de paz e segurança: uma abordagem que coloca as comunidades no centro e aposta no desmantelamento dos sistemas que sustentam o crime.
Os discursos de guerra e as ações de efeito contribuem pouco para isso e colocam em risco a vida e os direitos das populações locais, como ficou evidente nos últimos meses. No último dia 3 de março, forças equatorianas incendiaram o que foi apresentado como um acampamento “narcoterrorista” na província de Sucumbíos, localizada na tríplice fronteira e, três dias depois, o bombardearam com apoio do Comando Sul dos Estados Unidos.
Reportagens publicadas posteriormente mostraram que, na realidade, tratava-se de uma fazenda de criação de gado: nenhuma arma foi encontrada e surgiram denúncias de tortura. Em junho, três moradores da comunidade indígena shuar morreram durante uma operação contra o garimpo ilegal, também em Sucumbíos, com versões conflitantes entre a comunidade e o Exército.
Além disso, há meses a fronteira amazônica entre Colômbia e Equador permanece fechada, afetando os povos indígenas e as comunidades locais que vivem dos dois lados de uma linha que eles próprios não traçaram, enquanto isso representa pouco ou nenhum obstáculo para o crime organizado.
Os atores armados da fronteira não são exércitos invasores. Eles estão profundamente inseridos na economia local e no cotidiano de milhares de famílias, assim como na vida política e institucional do bioma. As populações amazônicas vivem sob ameaças, extorsão, recrutamento forçado e confinamento, mas também sofrem com a repressão e o abandono do Estado, enquanto a expansão do garimpo contamina seus rios e compromete sua saúde. Nenhuma estratégia que ignore essa realidade pode ser chamada de política de segurança. Os Estados não reverterão essa situação com soldados e bombardeios, mas sim construindo confiança e trabalhando em conjunto com as comunidades locais.
O processo de paz com o grupo armado Comandos de la Frontera (CDF), na Colômbia, demonstra que outro caminho é possível, mas também revela seus limites. Os homicídios em Putumayo, departamento colombiano na tríplice fronteira, caíram de 183 em 2024 para 41 em 2025; quase 13 mil famílias assinaram acordos de substituição de cultivos de uso ilícito e, em junho deste ano, 99 integrantes do grupo ingressaram em uma Zona de Localização Temporária, o passo mais concreto rumo à sua desmobilização.
Mas as contradições também são evidentes: o grupo nega atuar fora da Colômbia enquanto amplia seu controle no Equador e no Peru; deixou de comprar pasta-base de coca localmente apenas para deslocar o cultivo para o lado peruano da fronteira e direcionar seus negócios para o ouro; e continua exercendo controle territorial e social sobre as comunidades. A Defensoría del Pueblo da Colômbia advertiu que o processo avança sem garantias suficientes nem supervisão independente. Ainda assim, encerrá-lo por decreto, como anunciou o presidente De la Espriella, não significaria o fim da violência, mas sim sua intensificação ou deslocamento, deixando desprotegidas tanto as comunidades quanto as pessoas que já se desmobilizaram.
Nesse cenário, o Peru enfrenta um risco particular: reúne a institucionalidade de fronteira mais frágil da região com um marco legal que restringe a capacidade do Estado de enfrentar o crime organizado, em razão de sucessivas iniciativas legislativas aprovadas nos últimos anos. À medida que as estratégias repressivas avançam nos países vizinhos, a Amazônia peruana pode se transformar em refúgio e plataforma de expansão das economias ilícitas que sustentam os atores armados da região.
A resposta sobre o que deve fazer um governo realmente comprometido com a segurança na tríplice fronteira pode ser dividida em cinco pontos. Primeiro, rastrear o dinheiro proveniente das atividades ilícitas: as rotas de mercúrio, combustível, maquinário e lavagem de dinheiro. Segundo, manter o processo com os CDF, sob condições rigorosas, em vez de decretar seu fracasso. Terceiro, reconhecer e financiar as redes indígenas de monitoramento territorial e as alternativas econômicas locais, que constituem a primeira linha de alerta precoce e de proteção da Amazônia. Quarto, combater a corrupção e fortalecer uma presença estatal voltada ao atendimento da população local. Por fim, reforçar a cooperação regional amazônica, que avançou nos últimos anos, e condicionar toda cooperação militar estrangeira ao respeito ao direito internacional humanitário e à existência de supervisão independente.
A tríplice fronteira amazônica enfrenta uma decisão política crucial. Ela pode voltar a se tornar o laboratório de uma nova “guerra contra o crime”, na qual as economias ilícitas apenas se adaptam e se deslocam, sem que o problema seja resolvido em sua origem, enquanto as populações locais continuam arcando com os custos. Ou pode impulsionar uma arquitetura de segurança baseada na cooperação regional, em que as comunidades sejam parte central da estratégia — e não um alvo na linha de tiro. A janela para escolher esse caminho está se fechando rapidamente, e os sinais não são animadores.
Este texto foi publicado originalmente no diário El País, em 7 de agosto de 2026.
Medio: infoamazonia.org
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