
Brasil iniciou uma articulação para integrar os países do Mercosul e o Chile em uma cadeia regional de minerais críticos, com o objetivo de ampliar a produção, o processamento e a agregação de valor de recursos considerados estratégicos para a transição energética e para as novas tecnologias. A iniciativa busca aproveitar as reservas minerais existentes na América do Sul e reduzir a dependência da região de fornecedores externos, especialmente nas etapas industriais de maior valor agregado.
A proposta envolve um trabalho conjunto entre o Ministério de Minas e Energia do Brasil e a CAF, com estudos destinados a identificar recursos disponíveis, avaliar a demanda futura e selecionar projetos que possam formar uma cadeia produtiva integrada até 2050. A ideia é deixar de tratar a mineração apenas como atividade de exportação de minério bruto e avançar para processamento, transformação industrial e produção de insumos utilizados em tecnologias estratégicas.
O Brasil possui uma posição relevante nesse cenário. O país tem importantes reservas e produção de lítio, níquel, cobre, nióbio, manganês e grafita, além de grande potencial em terras raras. Esses minerais são utilizados em baterias, veículos elétricos, sistemas de armazenamento de energia, equipamentos eletrônicos, turbinas eólicas e outras tecnologias relacionadas à transição energética.
O principal desafio, porém, está justamente depois da extração. O Brasil ainda depende do exterior em diversas etapas de maior valor agregado, como a produção de compostos químicos refinados, materiais de alta pureza, componentes industriais e determinados produtos utilizados na fabricação de baterias. Ter a reserva mineral não significa controlar toda a cadeia tecnológica.
As terras raras são um exemplo dessa dificuldade. O Brasil possui uma das maiores reservas mundiais, mas ainda precisa ampliar sua capacidade de separação, refino e fabricação de produtos derivados. Essas etapas são fundamentais porque concentram uma parcela significativa do valor econômico e tecnológico da cadeia.
A integração regional pode ajudar a enfrentar esse problema. Em vez de cada país tentar desenvolver isoladamente todas as etapas, a proposta é aproveitar as diferentes vantagens minerais, energéticas, industriais e tecnológicas existentes na América do Sul para construir uma cadeia complementar.
O Chile entra nesse desenho como um parceiro particularmente relevante devido à sua importância na produção de minerais utilizados pela transição energética. A integração com os países do Mercosul permitiria ampliar o mercado regional e criar condições para projetos conjuntos de processamento e industrialização.
Para o Brasil, a iniciativa também representa uma oportunidade de utilizar sua matriz energética predominantemente renovável como vantagem competitiva. O país possui grande disponibilidade de energia hidrelétrica, eólica e solar, fator considerado importante para empreendimentos industriais que pretendam produzir materiais com menor intensidade de carbono. Um documento do Ministério de Minas e Energia destaca justamente a combinação entre recursos minerais, energia limpa e capacidade tecnológica como uma das vantagens brasileiras.
A questão ganhou importância geopolítica porque os minerais críticos passaram a ser considerados estratégicos por grandes potências. Estados Unidos, China e União Europeia disputam o acesso a matérias-primas necessárias para baterias, semicondutores, veículos elétricos, equipamentos militares e tecnologias avançadas. A concentração da produção e do processamento em poucos países aumenta o risco de interrupções no abastecimento.
Para a América do Sul, isso cria uma oportunidade, mas também um desafio. A região possui recursos minerais abundantes, porém historicamente exporta grande parte de sua produção sem realizar internamente todas as etapas de transformação. O objetivo da nova articulação é justamente tentar modificar esse padrão.
A proposta também pode fortalecer a posição do Mercosul nas negociações internacionais. Uma cadeia regional de minerais críticos daria ao bloco maior capacidade para negociar investimentos, tecnologia e acesso a mercados, em vez de cada país atuar isoladamente.
A iniciativa ainda está em fase de articulação e estudos, portanto não significa que já exista uma cadeia produtiva regional consolidada. Antes de chegar a projetos industriais de grande escala, será necessário identificar reservas, avaliar infraestrutura, definir regras ambientais, estabelecer mecanismos de financiamento e garantir segurança jurídica para os investimentos.
Outro ponto decisivo será a infraestrutura. Minerais extraídos em uma região podem precisar ser transportados para processamento em outro país e posteriormente enviados para centros industriais. Isso exige ferrovias, rodovias, portos, energia e sistemas logísticos capazes de reduzir custos.
A questão ambiental também será central. A expansão da mineração de minerais críticos não pode ser tratada apenas como uma corrida por recursos naturais. A exploração precisará conciliar segurança de abastecimento, proteção ambiental, direitos das comunidades e desenvolvimento econômico. A própria Agência Nacional de Mineração destaca que uma política nacional para minerais críticos deve combinar governança, sustentabilidade, agregação de valor e redução da vulnerabilidade externa.
Outro desafio será desenvolver tecnologia própria. A transformação de minério em produtos de alta pureza exige conhecimento científico, equipamentos especializados e mão de obra qualificada. Por isso, universidades, centros de pesquisa e empresas terão papel importante na construção dessa nova cadeia.
O Brasil já vem ampliando esforços nessa direção. O Serviço Geológico do Brasil publicou em 2026 um novo panorama sobre o potencial nacional de minerais críticos e estratégicos, reunindo informações sobre recursos e oportunidades para o desenvolvimento do setor.
A estratégia também pode gerar empregos qualificados. Uma cadeia integrada exige profissionais para mineração, geologia, química, engenharia, processamento mineral, pesquisa, logística e fabricação de componentes. O maior ganho econômico, portanto, não estaria apenas na extração do minério, mas na industrialização que vem depois.
Para o Mercosul, essa discussão ocorre em um momento de busca por novas áreas de integração econômica. O bloco já avançou em negociações comerciais externas, enquanto seus países procuram ampliar a participação em cadeias globais de valor. A construção de uma cadeia regional de minerais críticos poderia acrescentar uma dimensão industrial e tecnológica a esse processo.
A disputa internacional pela transição energética torna o momento particularmente relevante. A demanda por baterias, veículos elétricos, redes de armazenamento e energias renováveis tende a aumentar a importância desses minerais, enquanto governos procuram diminuir sua dependência de fornecedores concentrados em determinadas regiões do mundo.
A América do Sul possui uma vantagem que pode se transformar em poder econômico se conseguir avançar da exportação de matérias-primas para a produção de insumos e componentes tecnológicos. Essa transformação, porém, dependerá de investimentos de longo prazo e de uma coordenação política que ultrapasse os ciclos eleitorais de cada país.
O Brasil pretende ocupar uma posição central nesse processo por sua dimensão econômica, disponibilidade mineral, capacidade energética e estrutura industrial. A participação do Mercosul e do Chile amplia essa estratégia para uma escala regional.
Se os estudos avançarem para projetos concretos, a iniciativa poderá resultar em novas plantas de processamento, investimentos em infraestrutura, centros de pesquisa e acordos industriais entre empresas sul-americanas.
O resultado mais ambicioso seria transformar a região em fornecedora não apenas de minérios, mas de materiais estratégicos para a economia de baixo carbono.
Esse é justamente o ponto que diferencia a nova estratégia de uma política mineral tradicional. A questão deixou de ser simplesmente quanto minério cada país consegue extrair e passou a envolver quem controla as etapas seguintes: refino, processamento, fabricação e tecnologia.
O Brasil tenta agora levar essa discussão para dentro do Mercosul e construir uma estratégia regional diante de uma das principais disputas econômicas e geopolíticas das próximas décadas. A abundância de recursos naturais coloca a América do Sul em uma posição privilegiada, mas transformar essa vantagem geológica em desenvolvimento dependerá da capacidade dos países de integrar suas cadeias produtivas, investir em tecnologia e agregar valor antes de exportar.
ACERCA DEL CORRESPONSAL
GILSON DANTAS CARMINI
Gilson Dantas Carmini es periodista brasileño, presidente y editor en jefe de Prensa Mercosur. Especializado en integración regional, geopolítica y derechos humanos, desarrolla una destacada labor en el ámbito de la comunicación internacional.
Posee un Máster en Desarrollo y Cooperación Internacional y mantiene una amplia red de relaciones profesionales, académicas y diplomáticas en América Latina y Asia.
Entre sus reconocimientos destacan el Micrófono de Oro de la Asociación Nacional de Locutores de México (2021), el Doctorado Honoris Causa de la Universidad Internacional México Blanco (2020) y el título de Amigo de la Niñez y la Adolescencia.
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