
Durante recente encontro com o ministro das Relações Exteriores da Índia, S. Jaishankar, o ministro francês para a Europa e Assuntos Exteriores, Jean-Noël Barrot, fez uma observação que sintetiza o momento de transição da ordem internacional. A França preside o G7, grupo do qual a Índia participa de forma permanente há mais de uma década, enquanto Nova Délhi assumirá a presidência do BRICS em 2026. Para ambos os países, parceiros estratégicos, há amplo espaço para cooperação em favor do fortalecimento do multilateralismo.
A convergência dessa visão foi reforçada pelo presidente francês Emmanuel Macron, ao destacar a necessidade de aproximação entre os dois fóruns. Segundo ele, os países do BRICS não devem se tornar antagonistas do G7, assim como o G7 não deve adotar uma postura contrária ao BRICS. A declaração reconhece a crescente influência do bloco, a consolidação de uma ordem multipolar e a importância de soluções colaborativas em detrimento de abordagens conflituosas.
Em um cenário ideal, essa convergência é possível. O G7 segue dominante em áreas como finanças globais, tecnologia e serviços de alto valor agregado, além de exercer controle significativo sobre instituições e moedas internacionais. Já os BRICS despontam como um novo eixo de crescimento econômico, ancorado em commodities, consumo, manufatura, mão de obra e vastos mercados, desempenhando papel central nas cadeias globais de valor. Nesse contexto, a parceria estratégica entre a Índia e a União Europeia tende a ser fortalecida com a assinatura de um acordo comercial e com a participação da liderança europeia como convidada de honra no Dia da República da Índia, em 2026.
A fala de Macron ganha relevância em um momento em que o unilateralismo tem se intensificado no sistema internacional. Exemplos recentes incluem a retirada dos Estados Unidos de dezenas de acordos e organismos multilaterais e o aumento das tensões no âmbito da aliança transatlântica. Diante disso, cresce o interesse por conexões inter-regionais e por formatos plurilaterais de cooperação.
A Índia ocupa posição singular nesse cenário. Membro fundador do BRICS e integrante do QUAD — grupos frequentemente vistos como polos opostos —, o país sustenta que o BRICS não é um bloco antiocidental, mas uma alternativa não ocidental voltada a representar as aspirações das principais economias do Sul Global. Com uma política externa pautada por princípios inclusivos e universalistas, sintetizados no conceito de Vasudhaiva Kutumbakam (“o mundo é uma família”), a Índia se apresenta como potencial ponte entre diferentes regiões e agrupamentos.
Desde que o economista Jim O’Neill cunhou o termo BRIC, o grupo se expandiu de quatro para dez membros, incorporando países como África do Sul, Etiópia, Egito, Irã, Indonésia e Emirados Árabes Unidos. A Arábia Saudita segue participando das reuniões, enquanto a Argentina optou por não aderir sob sua atual orientação política. Na Cúpula de Kazan, ficou estabelecida a categoria de países parceiros, refletindo o interesse crescente de mais de duas dezenas de nações em se aproximar do bloco.
Atualmente, os BRICS reúnem quase metade da população mundial e respondem por cerca de 40% do PIB global, números comparáveis aos do G7. A Índia, país mais populoso do grupo, destaca-se também como a economia de grande porte que mais cresce no mundo, tendo recentemente superado o Japão e alcançado a quarta posição no ranking global. O bloco concentra ainda alguns dos maiores produtores e consumidores de energia, além de deter peso estratégico em minerais e tecnologias críticas.
Na presidência de 2026, a Índia sediará a Cúpula do BRICS e uma extensa agenda de reuniões setoriais, que abrangerão áreas como comércio, conectividade, finanças, contraterrorismo, cultura, tecnologia, educação, pesquisa, saúde e intercâmbio entre jovens. Um dos eixos centrais será a defesa de reformas nas instituições multilaterais, em especial na ONU e no Conselho de Segurança, cuja estrutura reflete a lógica do pós-Segunda Guerra Mundial e enfrenta crescentes questionamentos sobre sua representatividade e eficácia.
O BRICS busca se consolidar como uma alternativa cooperativa, sem imposições ou dominância, sobretudo no âmbito da cooperação Sul-Sul. Apesar da diversidade de regimes políticos entre seus membros, o grupo aposta no consenso e no respeito mútuo, contando com instrumentos como o Novo Banco de Desenvolvimento. Debates sobre a criação de uma moeda comum seguem em curso, impulsionados por sanções unilaterais e pela crescente busca por transações em moedas nacionais.
Em termos de segurança, a multipolaridade tende a favorecer arranjos regionais. Rússia, China, Índia, Brasil e África do Sul exercem influências distintas em seus respectivos entornos estratégicos, o que reduz a uniformidade global, mas pode intensificar rivalidades regionais e desafios à integração.
Paralelamente, a Índia deverá sediar, também em 2026, a Cúpula do QUAD, com Estados Unidos, Japão e Austrália. A coincidência oferece a Nova Délhi uma oportunidade singular de atuar como mediadora, reduzindo percepções de rivalidade e promovendo maior cooperação entre diferentes polos de poder. Em um mundo marcado por desafios globais, a solidariedade internacional se impõe como necessidade.
O BRICS, portanto, não pretende substituir a ordem internacional existente, mas contribuir para sua reformulação em bases mais multipolares e inclusivas. Como destaca o primeiro-ministro Narendra Modi, o grupo representa a construção de “Resiliência e Inovação para Cooperação e Sustentabilidade”, tendo a condenação ao terrorismo como princípio fundamental. Sob a presidência indiana, em 2026, essa agenda deverá ganhar novo impulso, em defesa do multilateralismo e do diálogo como caminhos para a superação das divisões globais.
Anil Trigunayat é ex-embaixador da Índia na Jordânia, Líbia e Malta e membro de centros de pesquisa internacionais.
Fonte: Embaixada da Índia no Brasil.
Por Embaixador Anil Trigunayat
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